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Era uma vez...

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Era uma vez... um tempo em que as crianças andavam descalças, corriam pelas calçadas, brincavam com bola de meia, com boneca de pano, soltavam pipa, inventavam jogos de esconde-esconde, de lenço atrás, de pique, formavam cirandas e, dando-se as mãos, cantavam cantigas suaves-sonoras. Era um tempo feliz em que a rua, as calçadas eram o cenário, o lugar onde se tomava sol e voltava para casa cansada, com o rosto corado e a alma leve, buscando um banho para tomar e um lugar para descansar das brincadeiras do dia, sabendo que amanhã, como o moinho, a roda da vida giraria e tornaria a trazer de novo todas aquelas delícias tão encantadoramente naturais.


Era um tempo em que se contavam histórias. Histórias de fadas, de duendes, da Branca de Neve, do Feijão e do Sonho. Esse estupendo Chesterton dizia que sua primeira e última filosofia ele a aprendeu na creche. E acrescentava que a lição da Cinderela era a mesma do Magnificat – a exaltação dos humildes; que a grande metáfora de A Bela e a Fera ensinava o quanto a criatura precisa ser amada antes de ser amável e a alegoria da Bela Adormecida mostrava como o ser humano foi abençoado com todos os dons recebidos ao nascer e como a morte pode ser suavizada com o sono. O país das fadas, ele dizia, nada mais é do que o país ensolarado do bom senso. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a Terra. As antigas babás não falavam às crianças sobre a relva, mas sobre fadas que dançam sobre a relva e os antigos gregos não conseguiam ver as árvores por causa das dríades.


Pobre Papai Noel! Ele vem perdendo dia a dia seu lugarzinho no coração das crianças. Eu me lembro como era tão bom sonhar, esperando pelo Natal! Os “baixinhos” pediam pra mamãe colocar o sapato na janela para o Bom Velhinho colocar dentro os presentes ansiosamente esperados. E esse sonho, como disse um pensador suíço, era o domingo do pensamento. Ninguém tem o direito de impedir as crianças de sonhar. Para Fernando Pessoa, o homem é do tamanho de seu sonho. É preciso, pois, sonhar, deixar a imaginação passear. O que seria de nós se não houvesse uma situação hipotética? Sem a imaginação não vamos a lugar nenhum.


A mamãe não só tem o direito de nutrir os sonhos do filho como tem o dever, porque os caminhos sem a presença mágica das estrelas, das fadas, das varinhas de condão, dos anõezinhos seriam muito tristes. Por isso, que se incentivem as mamães a levar os filhos pelos caminhos do sonho. Voltando ao impagável Chesterton (quem disse que um filósofo precisa ser sisudo?): sempre confiaria mais nas fábulas das velhas comadres em detrimento dos fatos das velhas solteironas. E, arremata ele, desde que a inteligência seja materna, ela pode cometer as loucuras que quiser.


O Natal vem vindo devagar. Daqui a pouco jogará suas asas sobre nós e nas suas entranhas virá o Bom Velhinho vestido de vermelho, dentro de seu trenó puxado por renas. Não mate o sonho de seu filho. Há tempo para tudo. Chegará a época do computador, dos games, dos smartphones, dos tablets e toda essa parafernália tecnológica que lota as vitrines e espicaça os desejos consumistas. Na vida, porém, como já se disse, há tempo para tudo, tempo de chorar e de dançar, de espalhar pedras e de ajuntá-las, de abraçar e de se afastar, de procurar e de perder, de rasgar e de remendar, de ficar calado e de falar.  


O que importa é o que fizermos nesse ínterim. Daqui a 20 anos estaremos mais arrependidos pelas coisas boas que não fizemos do que por tudo que já tenhamos feito. Então, não se apresse, deixe seu filho soltar as amarras, agarrar o vento, explorar, descobrir, sonhar. Que, futuramente, não venham bradar em seus ouvidos o mesmo grito dolente de Mário Quintana:


“Eu quero meu brinquedo novamente!

Sou um pobre menino... acreditai!

Que envelheceu, um dia, de repente!”


A autora é professora doutora aposentada da Unesp (mg-de-rosa@hotmail.com)

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