Articulistas

Trauma

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Não gosto do que vou fazer hoje, falar da minha infância. O trauma foi tão forte que toda vez que escorrego pelos meus tempos de menino, depressa me recomponho e volto para o presente. Aliás, esse trauma tem nome: Briggite. Não a Bardot, a gatíssima do cinema francês dos anos 60, mas a Briggite Beijô, a gatinha que enlouquecia a molecada do bairro onde eu morava. Então, lá pelos seus onze anos, loirinha, rabo de cavalo, ela era graça e tentação. Briggite Beijô, claro, era apelido. Corria entre nós que a nossa BB beijava na boca. Nenhuma outra menina chegava a tanto. Eram tempos tímidos de pegar na mão ou, indo um pouco além, da mão no ombro. Briggite Beijô, na frente do tempo e de todas as meninas, beijava ousadamente - e como beijava! era o que se dizia - e na boca. Por isso, tínhamos tanta inveja do Bacana, o menino mais bonito da turma, ele garantia ter beijado a BB na boca.


Eu, como quase todos da turma, era BV (boca virgem) e como a turma toda sonhava perder a virgindade da boca com a Briggite Beijô. E não é que o incrível aconteceu! A bicicleta vermelha me deu a tão desejada oportunidade. Explico-me. Presente de natal, linda, aro 26, a bicicleta chegou arrebentando, quanta inveja na molecada! Então, a menina Briggite, já ligada ao prestígio das rodas, percebeu o sucesso da bicicleta vermelha e viu em mim possíveis vantagens. Ousada, não perdeu tempo e me mandou um bilhete cor-de-rosa, cheio de coraçõezinhos, pedindo pra me namorar. Surtei.


Eu, que já estava nas nuvens com a bicicleta, fui parar no paraíso. Perderia, finalmente, a bocal virgindade. Era demais! Mandei o bilhete de volta. Pode ser hoje à noite? Na rua da sorveteria? No meio do quarteirão, naquela árvore? Sim, podia, às sete e meia – o bilhete voltou. O Bacana falava que tinha beijado a Briggite, mas não tinha nenhuma prova. Por isso, montei um plano: beijaria a boca da Briggite e, depois, como se costuma dizer, mostraria a cobra morta e o pau. Melhor abandonar essa imagem infeliz. Fiquemos apenas com a ideia de que beijaria a Brigite e, se os meninos duvidassem, mostraria apenas a prova, nada mais.


A prova seria o Gambá. Moleque, briguento, temido por todos e nada afeito a banhos ou higiene. Combinei com ele que chegasse antes no local do encontro, subisse na árvore, ficasse no mais absoluto silêncio. Seria a minha testemunha do beijo na boca. Assim combinado, assim foi feito.


Lá estávamos os três. Embaixo, eu e a Brigite. Em cima, o Gambá. Ela estava linda como nunca, um vestido florido cobria-lhe o corpinho gracioso. Tranquila, falava e ria, dona do pedaço. Eu , um verdadeiro idiota, tropeçava nas frases, não dizia coisa com coisa, o coração disparado e a boca seca. De repente, a menina danada, confirmando a fama, foi chegando e se insinuando. Percebi que a boquinha linda iria dar o bote. Ela passou as mãos por trás do meu pescoço e veio com tudo. Então, dolorida lembrança, a desgraça aconteceu. Juro por Deus, eu não sabia que no beijo de boca precisava abrir a boca. Não abri. A língua da Briggite, encontrando a porta fechada, escorregou molhada, lambuzando a minha cara e o meu nariz. Esperei tanto por aquele beijo e ele virou coisa nojenta, esparramando cuspe na minha cara.


Idiota, você é um perfeito idiota, moleque, nem beijar você sabe! A árvore tremeu com o tamanho da gargalhada vindo de cima. Brigite percebeu o Gambá no galho, ficou furiosa, filho da puta!, gritou. Saiu correndo, desapareceu. Então, me dei conta da sarna que arrumara pra me coçar: o Gambá seria a testemunha não da minha conquista, mas do meu ridículo. Uma desgraça, o fedido contou tudo em detalhes para a molecada. Uma vergonha, virei judas malhado sem defesa. Ainda bem que meu pai solidário - também ele soube da história - prometeu e cumpriu: mudamos de cidade. Até hoje sinto a cara molhada.

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras

Comentários

Comentários