Não sou supersticioso. Não faz o menor sentido azarar o gato por causa da cor. Menos ainda desvirar o chinelo que, de barriga para cima, anunciaria a morte de pessoa querida. Besteiras como essas desonram a nossa inteligência. Coisa ridícula. Confesso, contudo, que, se uma escada barrar o meu caminho, dou a volta, mas por baixo não passo não. Se posso evitar, evito. Não é superstição, apenas precaução. Só isso.
Não sou supersticioso, repito, mas entendo que nas chamadas situações-limite, a coisa pode ficar sem saída. “Há poucos ateus em um avião que está enfrentando uma turbulência acima de trinta mil pés”, um bom exemplo do professor Bruce Hood, da Universidade de Bristol. Dá pra discordar? Fazer figa num momento assim, parece-me perfeitamente desculpável.
Confesso que jogo do Corinthians é para mim uma situação- limite. Outro dia me peguei cruzando os dedos das duas mãos e, como os tinha mais nos dois pés, cruzei-os também para secar um pênalti contra o Timão. Vai errar, vai errar... eu repetia nervosamente em baixa voz, esmagando mentalmente o adversário e os vinte dedos para que a bola não entrasse. Adiantou? Nada. O goleirão Cássio desabou num canto e a bola entrou mansa e sorridente no outro. Esse é um exemplo solar de que é uma grande bobagem ficar achando que podemos interferir na ordem natural das coisas. Tudo já está escrito e bem determinado, ninguém vai mudar porcaria nenhuma com três batidinhas na madeira.
O genial Chico Anísio contou na tevê que o cara andava muito preocupado com o rumo torto que a vida estava tomando. Então, procurou um vidente, desses que enxergam o futuro, mas não ganham na loteria. Num corredor com muitas salas, localizou a plaquinha anunciando: “Vidente”. Três pancadinhas na porta. O vidente, lá dentro, indagou: Quem é? Claro, o cara desistiu da consulta. Podia ser diferente?
Agora, chegando as festas do fim de ano, a loucura atinge o paroxismo. A mim essa baboseira das superstições não vai pegar. Recuso-me a entrar com o pé direito – que pecado teria cometido o esquerdo? – no ano novo, que me deixa mais velho. O manual das idiotices diz que devo comer carne de porco porque o bicho fuça para a frente, mas não a de peru porque ele cisca para trás. Isso significa que se eu errar a carne no prato, minha vida pode simplesmente ir para as cucuias. Absurdo!
Até na minha cueca esse manual quer mandar. Diz ele que as cuecas (também as calcinhas) devem ser novas: as coisas ruins do ano ficariam grudadas nas velhas. E vai além: cobra-me que a cueca seja amarela. E a calça - claro tem que ter calça- seguindo a tradição das religiões africanas, branca. Cueca amarela com calça branca? Mau gosto. Não vai dar certo, o amarelo vai vazar. O manual quer mais ainda, entrar na minha economia e fazer o meu ajuste fiscal: devo colocar uma nota de dinheiro sob a palmilha do sapato, a sabedoria oriental garante que é pelos pés que a energia entra em nosso corpo. Boa razão para não esquecer a grana no bolso traseiro.
Rebelo-me contra todas essas tolices. Não vou comer romãs, nem lentilhas. Nem panelas vou bater para afugentar os maus espíritos. Também não vou dar os três pulinhos com a taça de champanhe na mão, mesmo porque, derrubando-se uma gota, uma tragédia já estaria anunciada. É o que vaticina o manual. Eu, que não sou supersticioso, mas que completamente desastrado sou, não posso correr tal risco. Melhor não, sabe lá né...
O autor é professor de redação e membro
da Academia Bauruense de Letras.