Como nem todos têm oportunidade de encontrar coisas interessantes em livros de 780 páginas, vamos compartilhar um desses achados com os leitores. Trata-se de um diálogo do grande advogado, tribuno e cônsul de Roma Marco Túlio Cícero com um cônsul com perfil do tipo de alguns dos nossos políticos visados pela ‘Lava Jato’. Não é cópia de texto escrito por Cícero, mas de sua biografia romanceada por Taylor Caldwell, baseada em documentos autênticos – “Um Pilar de Ferro”.
“Cícero muitas vezes ficava perplexo diante de Antonio. Este concordava plenamente com ele, achando que o orçamento deveria ser equilibrado, que o Tesouro deveria ser refeito, que as dívidas públicas deveriam ser reduzidas, que a arrogância dos generais deveria ser moderada e controlada, que o auxílio aos territórios estrangeiros deveria ser diminuído para que Roma não fosse à falência, que o populacho deveria ser obrigado a trabalhar e não depender do governo para sua subsistência e que a prudência e a frugalidade deveriam ser praticadas assim que possível. Mas quando Cícero apresentou fatos e cifras, mostrando de que modo todas essas coisas deveriam ser efetuadas por meio da austeridade, disciplina e bom senso, Antonio ficou perturbado.
- Mas isso ou aquilo traria dificuldades para essa ou aquela classe – disse Antonio – O povo está acostumado a exibições luxuosas nos circos e teatros, e às loterias, além de cereais, feijão e carne de graça, quando estão na miséria, e abrigo quando estão desabrigados e uma parte da cidade é construída. O bem-estar de nosso povo não é de importância primordial?
- Não haverá assistência social se nós falirmos – disse Cícero, com severidade.
– Só poderemos nos tornar solventes de novo, e fortes, se nos sacrificarmos e gastarmos o mínimo possível, até que seja paga a dívida pública e o Tesouro se refaça.
- Mas não podemos, se tivermos coração, privar o povo do que vem recebendo há muitos decênios de parte do governo. Isso criará as dificuldades mais terríveis.
- É melhor que nós todos apertemos os cintos do que ver Roma sendo derrubada – Disse Cícero.
Antonio ficou ainda mais preocupado. Parecia-lhe muito claro que o povo devia ter tudo que desejasse, pois não eram cidadãos romanos, habitantes da nação mais poderosa e rica do mundo, motivo de inveja de todos os outros povos? Por outro lado, os fatos e as cifras de Cícero eram inexoráveis. Antonio, animado, sugeriu a elevação dos impostos, para se encher o Tesouro e continuarem os gastos públicos maiores e mais vastos.
- Eu, por mim, estou disposto a aceitar impostos mais elevados – disse o rapaz, com tanta sinceridade que Cícero deu um suspiro.
- Mas há centenas de milhares de cidadãos romanos, bons e decentes, que neste momento estão batalhando sob impostos insuportáveis – disse Cícero – Com mais um pouco de pressão, quebraremos as costas dos fieis cavalos. Então, quem carregará Roma?
A mente de Antonio, ou pelo menos a parte de sua mente que não estava totalmente cheia de boa vontade a ponto de se tornar cega e surda, reconheceu a lógica desse argumento. Ele gostava de levar uma vida agradável e não compreendia por que todos os homens não podiam ter uma vida assim. Fechava a cara diante dos livros de escrituração e contabilidade, suspirando repetidamente.
- Como é que chegamos a essa situação? Murmurou ele.
- Devido à extravagância. Pela compra dos votos dos mendigos e dos indignos. Adulando a plebe. Pelos nossos esforços no sentido de elevar as nações indolentes ao padrão de Roma, nelas vertendo nossas riquezas. Pelas concessões imensas aos generais, para que pudessem ampliar suas legiões e suas honrarias. Pelas guerras, acreditando que os nossos recursos eram inesgotáveis.”
Apesar dos esforços, Cícero não conseguiu salvar a República romana, que vinha sendo minada por ditaduras e foi substituída pelo Império. Esperamos que este compartilhamento tenha suscitado algumas comparações interessantes com a situação vivida atualmente pelo nosso país.
O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru