Um jovem caminhava pela praia ao amanhecer quando viu um idoso apanhando estrelas do mar trazidas pela maré e jogando-as, uma a uma, de volta ao mar. Aproximou-se e perguntou por que estava fazendo aquilo. O idoso lhe respondeu que as estrelas do mar morrem ao sol, ao que o moço lhe questionou: “Mas a praia tem quilômetros de comprimento e há milhares de estrelas do mar; será impossível salvar todas. Você acha que seu esforço fará diferença?”.
O idoso olhou para a estrela do mar em suas mãos e atirou-a em direção das águas. “Para esta”, disse, “fez diferença, diante dela não pude ser indiferente nem omisso, porque a omissão e a indiferença são pesos que envergam a balança para o lado negativo”. Assim era Hecmet Farha, nunca pensou em consertar o mundo todo, mas tinha como tarefa fazê-lo um dia por vez, uma pessoa por vez, um ato por vez.
Estamos aqui porque alguém quis que aqui estivéssemos e porque há uma tarefa que somente nós podemos cumprir, ninguém mais. Não existem duas pessoas iguais, como não existem dois lugares, dois momentos ou circunstâncias iguais. Quando o que eu posso fazer corresponder àquilo que precisa ser feito, encontramos a tarefa que nos cabe cumprir. Temos potencial para criar e recriar a realidade através de pensamentos e ações e transformá-la para pior ou para melhor.
Hecmet Farha sabia que a sociedade civil depende da educação e de espaços cívicos onde as pessoas se encontrem, se misturem e criem relações que atravessem barreiras de classe e etnia. Não há nada mais justo do que reconhecermos hoje como precioso e altamente positivo e relevante o resultado social do trabalho realizado por ele através do Lions Clube Centro e do Clube Monte Líbano. Não há nada mais verdadeiro do que reconhecermos que aquela semente, carinhosamente plantada por ele e por outros ilustres bauruense, foi bem cultivada, se transformou em uma frondosa árvore. Quantos, ao longo de tantos anos, não usufruíram dos frutos do conhecimento propiciados pelo Colégio Técnico Industrial Isaac Portal Roldan e pela Faculdade de Engenharia de Bauru, hoje, ambos da Unesp.
Existe uma sentença de Johann Wolfgang Göethe que reflete a melhor definição possível sobre como vencer desafios. Disse o poeta: “O mundo só pode ir em frente por meio daqueles que se opõem a ele”. Nesta sentença admirável, ele resumiu a evolução da aventura do homem sobre a Terra, porque as grandes transformações, em qualquer área, sempre foram produzidas pelos que se opõem e desafiam o já estabelecido.
Hecmet partiu, mas deixou-nos a nítida, a segura e a feliz sensação de que cumpriu sua tarefa.
O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp - câmpus de Bauru