Bourdeaux é a cor do passado. Escorre no copo a lágrima colorida, exala o perfume da noite e, solitária, fica estagnada meio ao vinco formado pela dor. Raras as almas que puderam partilhar da prisão de pensamentos e os momentos insanos ficam enterrados nas poucas declarações. É preciso ajuda, no caminho do terror, a respiração incompleta induz ao pânico, quem nunca o teve mal consegue imaginar, desdenha, brinca e estrangula o soluço que não sai. O silêncio é resposta, mas o acolhimento destrava a alma, o tempo não distancia a amizade, mãos surgem e recolhem cacos, artistas do amor transformam dedicação em esperança. Volto a respirar, devagar, secam as lágrimas e brotam as palavras.
Bourdeaux se torna minha memória agitada, a liberdade é vigiada e os espectros de vida já surgem em estalos sociais e o horizonte se firma em encontros profissionais que mantém a vida. Preciosos são os ouvidos que denunciam a marginalização da dor, trato de ética e há salvação para o que era perdido.
Bourdeaux é o sangue na cruz, fé testada; estremecida e restabelecida a linha da vida que se torna dançarina e a música pulsa novamente, há encanto e pranto, mas já não dói tanto, sobrevivi! O sol permite a chuva, nuvens que brincam no céu de promessa e quietude. Mas nem tudo clareia.
Bourdeaux é a saudade escancarada daquilo que se perdeu, daquilo que não aconteceu, do que vai embora, o vinho mapeia a área retorcida, lampejos do desespero manipulam os sorrisos que surgem, é também a cor do futuro, não que seja ruim, mas misteriosa. Bourdeaux, por ela vejo o sangue que não escorreu e brindo uma nova fase. Bourdeaux é o chicote das críticas, cale-se e veja a cor de uma nova vida!