Geral

Há 120 anos tinha início o processo de criação do município de Bauru

Luciano Dias Pires, especial para o JC
| Tempo de leitura: 8 min

Nilton Gallo/Divulgação
Antiga estação de Espírito Santo de Fortaleza, onde hoje estão as terras da fábrica Duratex

Um fato pitoresco, inimaginável hoje em dia, deu início ao processo de criação do município de Bauru em 7 de janeiro de 1896. O aniversário da cidade é comemorado em 1 de agosto porque foi neste dia, do mesmo ano de 1896, que o governo do Estado sancionou a lei que criou oficialmente o município de Bauru. Mas os primeiros fatos decisivos ocorreram meses antes, em 7 de janeiro, quando os vereadores que representavam o Distrito de Bauru se dirigiram para a posse daquela legislatura na Câmara Municipal de Espírito Santo da Fortaleza, entre Agudos e Pederneiras, hoje área de propriedade da Duratex. Para garantir a transferência da sede do município para o então distrito de Bauru, que àquela altura já era maior que a sede Espírito Santo, adiantaram o relógio em meia hora, iniciaram a sessão e aprovaram a lei com a mudança.   

É inegável afirmar que o progresso de Bauru teve seu primeiro grande impulso a partir do funcionamento da primeira ferrovia que aqui chegou (Estrada de Ferro Sorocabana), em 1905, que veio atender aos anseios de Bauru, que finalmente estava ligada a São Paulo, passando em seu percurso por Agudos, Lençóis, São Manoel, Botucatu e outras. Com a inauguração, em 27 de setembro de 1906, da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, mais a Companhia Paulista de Estradas de Ferro, cujos trilhos atingiram a cidade em 1910, esses então modernos meios de transportes proporcionaram a vinda de um maior número de brasileiros e estrangeiros à procura de novas oportunidades quanto à vida profissional.

Com essa movimentação, o  comércio ganhava proporções que o colocava em situação privilegiada e de grande importância na vida econômica da pequena localidade que em 1927 foi batizada com o slogan de Capital da Terra Branca. Assim era Bauru a partir de 1905 que, com o transcorrer do tempo, passou a exercer invejada liderança em toda a região.

A ‘tomada’

Ao largo dos influentes fatores de ampla repercussão progressista que a ferrovia trouxe a Bauru, um fato preponderante para que esse desenvolvimento fosse uma realidade ocorreu anos antes, no finalzinho do século 19, em 1896. Trata-se da “tomada” de Espírito Santo da Fortaleza, que era a sede do município ao qual Bauru estava subordinado, como Distrito de Paz, a partir de 1893.

Tudo começou por ocasião das eleições municipais em 30 de julho de 1895, quando foi escolhido o novo prefeito e, consequentemente, os futuros componentes da Câmara Municipal. Como na época Bauru crescia assustadoramente, o seu colégio eleitoral superava o da sede do município que era Espírito Santo da Fortaleza. Com essa supremacia quanto aos votos apurados, Bauru elegeu todos os edis que aqui residiam e fizeram maioria, de forma inconteste, o comando do Legislativo que deveria tomar posse em janeiro de 1896.

Os políticos derrotados não aceitaram, de forma pacífica, aquela vitória contundente dos bauruenses, razão porque entraram com recursos junto às autoridades competentes, chegando mesmo a solicitar a anulação do pleito, alegando várias irregularidades. Enquanto isso, os líderes bauruenses se defendiam com provas irrefutáveis das acusações infundadas. Finalmente, os poderes estaduais determinaram a contagem oficial da votação e, constatando a lisura da mesma, chegaram à conclusão de que nada viria empanar a validade daquela eleição. Marcaram então a posse dos eleitos, cuja data recaiu no dia 7 de janeiro de 1896.

Chegou o dia da cerimônia e de Bauru, bem cedo, partiu a comitiva composta dos vereadores eleitos (seis), seus familiares, amigos e correligionários. No caminho se falou a respeito do evento e com insistência sobre a possibilidade do surgimento de problemas que poderiam acontecer, inclusive luta armada.

RELÓGIOS ADIANTADOS

Foi quando um dos bauruenses teve a ideia de sugerir aos que possuíssem relógio (de bolso) que adiantassem os mesmos em meia hora, pois assim chegariam à sede da Câmara trinta minutos antes do início legal da sessão e poderiam começar os trabalhos sem a presença dos políticos de Fortaleza. Em lá chegando, rapidamente deram largada à solenidade e, na ausência do presidente cessante daquela Casa de Leis, um dos eleitos assumiu aquele posto e, dentro dos trâmites legais, foi dada posse e estes, por sua vez, imediatamente elegeram o presidente do Legislativo – Joaquim Pedro da Silva – e os ocupantes dos outros cargos.

Fotos: Quioshi Goto/Reprodução
José Alves de Lima foi o primeiro prefeito de Bauru (à esq.) e João Antônio Gonçalves propôs a mudança da sede

Como era na época, os vereadores indicaram, entre os seus pares, o novo prefeito, que foi José Alves de Lima. Desnecessário dizer que, com a chegada das autoridades de Fortaleza, inclusive dos derrotados, o ambiente não ficou nada amigável, pois discussões e mais discussões surgiram, porém prevaleceu a lei e foi consumado o ato que constou da ata. Na oportunidade, uma sugestão foi apresentada, pois considerando que Bauru progredia mais que Fortaleza e que esta estava em decadência, não possuindo nem mesmo um local apropriado para que servisse de pernoite aos vereadores bauruenses quando lá comparecessem para as sessões, propunha que a sede do município mudasse para Bauru.

Protestos e mais protestos aconteceram por parte dos moradores de Fortaleza, principalmente dos seus políticos, os quais exigiram que constasse da ata veemente repulsa, a qual de nada adiantou, pois a decisão era definitiva e aprovada por unanimidade. Móveis, cofre com dinheiro, documentos etc, tudo foi colocado nos meios de transporte que fizeram parte da comitiva (carros de boi, charretes e outros) e trazidos para Bauru. Antes, um dos bauruenses, a cavalo, retornou em desabalada carreira para informar que aquele povoado já era a nova sede do município, decisão essa que agora apenas dependia de um ato oficial do governo estadual para a devida legalização.

Rojões e banda nos festejos

A chegada da comitiva a Bauru foi apoteótica. Rojões, banda de música, discursos e animado baile coroaram aquele acontecimento histórico que veio mudar o destino da cidade. A partir daquele 7 de janeiro de 1896, uma sequência de importantes empreendimentos deu forças para que Bauru, no dia 1 de agosto de 1896, passasse a ser, oficialmente, a sede do município com a promulgação, pelo presidente do Estado – Campos Salles – da lei nº 428, que em seu conteúdo dizia o seguinte: “A partir desta data o município de Espírito Santo da Fortaleza passa a denominar-se Bauru, mudando-se para este povoado a sua sede”.

Participaram daquele momento histórico, quando Bauru oficiosamente conquistava a sede do município, os seguintes vereadores eleitos e que aqui residiam: Manoel Jacynto Bastos, Domiciano Silva, João Antônio Gonçalves, José Alves de Lima, Joaquim Pedro da Silva e Francisco Pereira da Costa Ribeiro. Nosso primeiro prefeito (na época esse cargo era conhecido como intendente) – José Alves de Lima – comandou ao destinos de Bauru por apenas 6 meses, pois vítima de grave doença veio a falecer.

Domiciano Silva foi então quem assumiu a chefia do governo municipal, provisoriamente, mas logo depois foi eleito e assim completou o mandato. Salientamos que naqueles tempos o presidente do Legislativo tinha maiores poderes que o próprio prefeito, no que diz respeito às decisões mais importantes no tocante às melhorias para a cidade, que redundavam em grandes benefícios para a população.

JC projeta edição dos 120 anos

Fotos: Aceituno Jr./Reprodução
Edição especial dos 100 anos  e, ao lado, Edição especial dos 110 anos

A história de Bauru foi traçada com as marcas de muitos migrantes. Dois deles, Felicíssimo Antônio de Souza Pereira e Antônio Teixeira do Espírito Santo, foram pioneiros ao fincar pé por estas terras e a iniciarem, por volta de 1856, um povoado. Era, talvez, a primeira vez que o nome de Bauru  aparecia em um documento oficial. Começava, desta maneira, a surgir a Vila de Bauru, subordinada ao município de Espírito Santo de Fortaleza, localizado próximo a Agudos e sob as influências políticas de Lençóis Paulista.

Histórias como esta, do passado, e a discussão sobre o presente e o futuro da cidade farão parte da edição documento-histórico que o Jornal da Cidade já está preparando para os 120 anos de Bauru, comemorados neste ano. “Já começamos a trabalhar”, afirma a editora dos suplementos do JC Giselle Hilário, responsável pela edição. “Temos uma equipe de repórteres, repórteres fotográficos e colaboradores trabalhando para garantir que cada bauruense – de nascimento ou de coração – mergulhe na história e no desenvolvimento da cidade”, ressalta.

Já o gerente de Marketing do JC, João Carlos do Amaral, informa que esta é a grande oportunidade de as empresas colocarem suas marcas num produto editorial e documental importante da cidade. “De maneira diferenciada, reforça-se o propósito das marcas com a cidadania, ajudando a viabilizar o resgate daquilo que é mais importante”, afirma Amaral.

No que é complementado pelo diretor de redação do JC, João Jabbour: “Um povo que não conhece nem resgata sua história não tem como entender os processos atuais para definir um horizonte sustentado. Queremos colaborar com essa discussão levando ao leitor uma edição de conhecimento e de debate, justamente às vésperas da eleição municipal”.

Você sabia?

Que antes de se tornar município, Bauru já existia há cerca de 40 anos, tendo se iniciado como povoado por volta de 1856. Em sua maioria, os primeiros colonizadores vieram de Minas Gerais, entre eles Azarias Leite e seu tio Araújo Leite. Chegaram por uma trilha de terra onde hoje é a Rua Floresta, passando pela região atualmente conhecida como Baixada do Silvino, construindo as primeiras casas no começo da atual rua Araújo Leite, ao lado do Córrego das Flores, hoje canalizado sob a avenida Nações Unidas.

Comentários

Comentários