Nem só de sanduíche vive uma cidade. Requer arte, cultura, política e afins. Gente capaz de transformar a nossa leitura em provocações itinerantes. Gente em prosa ou em verso. Gente com escrita capaz de fazê-lo sentar-se no sofá e ao mesmo tempo retirá-lo da zona do conforto. Alguém, com “Mãos nos Bolsos”, convicto de que “Os Anjos Mascam Chiclete”. Pudera. Tamanha “Lixeratura”, que “Penuguinha” declararia facilmente ter visto “O Sapato que Sabia Andar”. Meu Deus, por “Poemas de Quase Religiosidade” confrontarem-se com a constante insatisfação humana, o resultado longe estaria de ser diferente: “Me Apaixonei por mim, mas não fui Correspondido”. Diante de tudo, a egoísta, ou seria hedonista, declaração em “Gosto dos dias de sol, só para ficar na sombra”.
Isso é um pouco do muito de Luiz Vitor Martinello. Poeta, professor de Literatura. Professor poeta ou poeta professor? Seus escritos referências são para quem vê a árvore sem perceber o contorno da floresta. Sua literatura evidencia quão cáustico é o mormaço da rotina, apesar de a retina entregue estar a um astigmatismo social. Seus textos regurgitam a nossa indigestão para tanta ração. O faro, domesticável, à obediência comportamental, à fidelidade canina. Cortante e ácida, a ironia busca em Luiz, sim, porque Luiz já foi mais Vitor. Hoje, unido ao que o separou, Luiz volta a ser Luiz Vitor Martinello com toda a sabedoria perceptiva de um escritor convicto de que a vida vale, a todo momento, ser reinventada.
Dentre seus escritos, zelo, despudoradamente, tamanha tentação, por Devoção. Impossível não se enxergar nele em hormonal imaginação. A alma amendoada de Laura, com bundinha arrebitada, seios empinados e coxas, reveladas em conchas sobre as nossas mãos. Ah! Quantos de nós meninos levados, levados pelo prazer, já não gozaram disso! Quantas mãos à obra! Já em Amor, Sublime Amor, o autor diagnostica que quando o amor pica, nem Freud explica. Pica aqui, pica lá, pica acolá. E conclui que o amor flui, por estar sempre em moda, já que o amor é foda!
Transitando entre religião, sentimentos, metafísica, comportamento e filosofia, ressalto o Traçado Lírico Sentimental da Cidade de Bauru. Publicado em 1983, o poema, no traço do título, retrata a importância do Centro e dos tradicionais bairros no desenvolvimento da cidade. Uma aula de Sociologia. Certeiro, Luiz Vitor dispara assuntos bem contemporâneos. Nas enchentes de janeiro, sugere o autor, melhor asfaltar o rio. E, no caminho do riso para a saudade, emociono-me nos versos à Baixada do Silvino. Minha infância caminhou alegremente com meus avós no Vista Alegre. À saudosa Praça - sim, pois, um dia já foi acolhedoramente praça - Rui Barbosa. Ao comércio da Batista de Carvalho, na carinhosa companhia de minha mãe, com sacolas da Louca, Yara e Dinar dentro de um Chevette. É, ser bom filho, comportar-se bem durante a semana, vantajoso era. Aos sábados, visitávamos as Lojas Americanas. Meu Deus! Era o máximo comer um lanche lá. Lojas Americanas foram nosso primeiro shopping.
Escritor bom é bem assim: para cada tema, um poema. Coerente com a chegada de 2016, o poema Ano Novo revela o revelador. “O ano novo já está dentro do que vai como, na gema, dentro do ovo, a ave que sai como o filho que vem do pai. De modo que, de cara nova: sem ter sido o sangue novo já é curtido o que, ainda não, mas que logo será nascido.Porém, como da gema é diferente a ave salve o ano que chega,salve! Que a face que apresenta seja a da esperança que nos sustenta. O resto a gente enfrenta, inventa, apimenta (ou simplesmente requenta).” Literatura viva. Viva a Literatura!
O autor é professor de Língua Portuguesa e colaborador cultural do JC