Uma coisa que vejo com frequência é que vivemos na era do humor sem limites, do mau gosto, o humor negro. Aquele que mais do que entreter, distrair ou fazer rir, parece querer testar os limites possíveis da moral, do bom gosto e do razoável.
Num universo saturado de piadistas, comediantes e imitadores fica cada vez mais evidente que o que chama mais atenção, o que consegue distinguir um humorista do outro é a capacidade de ir mais longe e fundo no que se considera politicamente incorreto, grosseiro ou apenas de mau gosto. Vence quem gera o maior numero de processos ou choca ainda mais a comunidade.
Não quero entrar no debate do rompimento dos limites que leva uma sociedade a evoluir, mas sim no rompimento dos limites que leva um pai a chorar mais uma vez a perda de um filho.
O jornal satírico francês Charlie Hebdo, o mesmo jornal que publicou charges satirizando o profeta Maomé e como consequência foi invadido por dois homens armados no dia 7 de janeiro de 2015, tendo como resultado 12 pessoas mortas, voltou a chocar. Dessa vez, o alvo foram todos os pais do mundo: publicou uma charge sobre o menino sírio de 3 anos que morreu afogado. Na charge, aparece ele morto na beira da praia e adulto correndo atrás de mulheres, com os seguintes dizeres: -“Migrantes. No que teria se transformado o pequeno Aylan se tivesse crescido? – Seria um tarado!”
Para entender a charge é preciso citar a onda de estupros e roubos que ocorreu na cidade de Colônia, na Alemanha, na noite de Ano Novo. Estas barbáries foram atribuídas aos imigrantes e mais de 600 mulheres já denunciaram os abusos.
A charge, que na minha opinião foi repugnante, queria dizer que os sírios são tarados e o pequeno Aylan Kurdi seria apenas mais um pervertido, que a morte desta criança na verdade privou o mundo de mais uma dor de cabeça, que o futuro de todo menino sírio é ser um estuprador.
Só um detalhe sobre os casos de abuso em Colônia: dos estupradores identificados, nove são argelinos, oito marroquinos, quatro sírios, cinco iranianos, um sérvio, um norte-americano e dois alemães.
Por que não fizeram uma charge ironizando a educação sexual americana? Temos um americano envolvido! Ou, por que não atacaram a cultura alemã? Dois abusadores! Não fizeram porque são covardes! É mais fácil fazer sátira de quem já está debilitado e morto do que atacar quem pode destruí-lo.
O senhor Abdullah, pai do pequeno Aylan, não só perdeu seu filho de 3 anos, perdeu seu lar, sua pátria, seu emprego, perdeu outro filho e a esposa. Por tudo isso eu também chorei ao ler da sua dor ao sair esta charge.
O mundo vive numa guerra interminável, onde existem várias formas de terrorismo, e este que foi praticado pelo jornal francês é o terrorismo que dilacera a alma, pois eles mataram pela segunda vez uma criança e fizeram pela segunda vez o mundo chorar a perda deste pequeno anjo.
Na sua página do Twitter, a rainha Rania, da Jordânia, deu uma nova resposta à pergunta da charge francesa: “Aylan podia ter-se transformado num médico, num professor ou num pai carinhoso”.
De fato, Aylan poderia ter qualquer um destes futuros citados pela rainha, mas a ajuda não chegou a tempo. Que levemos ajuda aos nossos filhos e aos filhos dos nossos próximos em quanto ainda temos tempo.