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Conceito de saudade se modifica no mundo atual

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 3 min

Quem já sentiu falta de alguém, sabe o que significa a saudade, cujo dia é celebrado hoje: sentimento forte e insistente, por vezes, doloroso e sucessor das mais variadas perdas da vida. No passado remoto do Brasil, os escravos africanos já adoeciam e morriam de “banzo”, uma saudade considerada insuportável do país de origem e dos laços destruídos pelo tráfico negreiro. Saudade, como se sabe, também é associada a luto - e gera dúvidas.

“Há sempre que se perguntar: até que ponto é saudável a saudade?”, questiona a publicitária Luciana Silva. Ela continua: “É certo alimentarmos esse sentimento? Será que o tempo leva a saudade embora? O tempo ajuda, claro. Dizem até que é um mestre navegante a transportar a canoa melancólica até deixá-la, solitária, na outra margem do rio, bem distante de nós. As lágrimas também limpam seus rastros, mas é bom ficar atento”.

Fotos: Divulgação
Carmen Maria Bueno Neme
Psicóloga Cristiane Dameto

É bom mesmo ficar atento: quando chega a impedir a felicidade, a saudade é motivo, sim, para buscar ajuda profissional. Perdas não elaboradas e mudanças não aceitas acarretam dificuldade do fluir da vida. Carmen Maria Bueno Neme e Cristiane Dameto são duas psicoterapeutas bauruenses que atuam nessa área e orientam a respeito. “Casos típicos em que a saudade chega e pode se instalar são a morte, separação de casais, aposentadoria, mudança nas fases da vida, adolescência e até  menopausa. Lidar com  dificuldades de superação é parte do processo de amenização da saudade, que chega até a doer fisicamente, como explicam alguns médicos”, lembra Cristiane Dameto.

Convém observar também que há pessoas mais tendentes ao chamado “saudosismo”, uma tendência à valorização demasiada do passado. “Com temperamentos melancólicos, os saudosistas vivem mergulhados em lembranças do que já viveram, pouco apostando no presente e no futuro”, frisa.

Presos no passado

“Idosos são mais propensos a se fixarem no passado, pois é lá que está sua fase mais robusta e longa da vida. Com poucas expectativas acerca do futuro, as pessoas mais velhas acabam se apegando demais a lembranças, o que os afasta do convívio social, principalmente da interação com outras faixas etárias que não têm o mesmo interesse no que ficou para trás”, lembra Carmem.

Um novo tipo

A saudade à moda antiga, nostálgica, está em extinção, até certo ponto. Pelo menos é o que defende Carmen Neme. “É que o espírito do nosso tempo, o ‘zeitgeist’, descartável e apressado, acelera a civilização rumo ao futuro e a praticidade da vida. Hoje, quase ninguém mais se interessa em jogar conversa fora falando sobre o passado”. Deixaremos de sentir saudade, no futuro, então?

“Apesar de negligenciada, a tendência do revival jamais deixará de ser uma necessidade vital de todos nós. Até mesmo as redes sociais reconhecem o quanto é preciso rememorar alguns momentos especiais de nossa trajetória e o próprio Facebook faz questão de nos surpreender com lembranças que captam em nossas linhas do tempo”, sentencia.

Para criança entender

“Virando Estrela” é um livro voltado para o público infantil. A obra mostra o que é a saudade e auxilia a criança a elaborar o luto. Os autores são Jonas Ribeiro e Zuleika de Almeida Prado. O leitor vai conhecer a história da ida de Rafael à casa dos avós. Ao chegar, sua avó explica que o avô “virou estrela”. Publicação da editora Mundo Mirim, o livro mostra uma história de amor, perda e superação. A ilustradora é Alessandra Tozi, ganhadora em 2002 do prêmio NOMA, promovido pela Unesco, no Japão.

Você sabia?


A saudade não possui equivalente em outro idioma. Dia da Saudade, hoje, só é comemorado no Brasil. O termo “saudade” vem do latim “solitas”, cujo significado é solidão.

Já no Dicionário Aurélio está assim: “Saudade: substantivo feminino - Lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las; nostalgia”.

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