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Nosso monstro de estimação

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Cena 1: Sobrevoo pela cidade. Início da manhã. Trilha instrumental, letreiros de abertura. Ziguezagueia a câmera, e a música vai junto. Até chegar a uma janela aberta de casa e ali parar por instantes. Continua o voo para além da cortina, que balança ao vento. Cessa a música e, em seu lugar, zumbido de pernilongo. A câmara desce com tudo até o pescoço do homem que dorme de lado. Ele leva a mão espalmada em golpe sem ver na nuca. Pá! Senta-se à cama, queixoso para si, fio de voz e cabeça baixa: “Esses mosquitinhos ainda acabam com a gente”.


Cena 2: silêncio da noite rompido por barulhenta nebulização. Veículo lança fumaça  na esquina onde homens e mulheres bebem nas mesinhas em calçada de bar. No terreno ao lado, mais barulho: corte, falação, facão e perseguição. Guerra. Alguém pergunta com cigarro na mão: “Vamos ganhar essa?” . Sobe a fumaça do cigarro, que cruza com a fumaça da nebulização.


Cena 3: presidente na TV. Pronunciamento duro. Todos devem usar aquela nova roupa amarela, fofa e esquisita. Feita de plástico que cobre o corpo todo. “Desde que os repelentes perderam efeito, não há outra saída”, diz ao lado de assessores carrancudos. Com as recentes mutações do vírus a sensação é de não ter para onde correr. Ruas desertas. Crise alimentar. Produção precária. Salve-se quem puder.


Cena 4: ainda bem que é filme. Will Smith e Rodrigo Santoro desenvolvem uma substância qualquer de difícil explicação e o líquido salvador é acoplado a um drone gigante. Eles observam a engenhoca subir. Eles e todos os habitantes ao lado. Uma câmera no drone revela ao expectador do filme as tensas feições dos humanos em pé, em muda torcida, olhares para o alto. De lá de cima o drone explode e a chuva de gosma mata os mosquitos.


Cena 5: Menino no gramado joga a bola para o cachorro. Tudo melhorou desde a salvação. A câmera acompanha a bola até um canto distante do jardim. A bola estaciona. Câmera fixa nela, ouve-se a voz do garoto ao pai: “Não sei para onde ela foi”. Ao lado da bola, um pequeno recipiente branco de plástico. Nela, água parada. Câmera mergulha e a tela grande é tomada por larvas. Zumbido de pernilongo. Fade out. Fim de cena. Fim de filme. Silêncio na sala. Que assim seja só em filme. Que um filme assim não tenha continuação.     


O autor é editor executivo do JC

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