Decida-se Caetano Veloso, sim ou não? Como estudiosa de história da arte eu acabei quase socióloga. Vi os erros da humanidade se repetindo período após período, e para meu assombro tomei conhecimento da noticia de que a censura estava de volta aos meios de comunicação. A vítima da hora era o Estadão. Um desembargador, ferindo as normas constitucionais, proibiu o jornal de publicar reportagens referentes aos escândalos de um nobre senador. “Um homem da transição democrática cometendo um ato da ditadura,” reclamou Pedro Simon. Oficialmente a censura teve seu fim em 1978. Sem liberdade, a verdade não aparece, diz o refrão popular. Alguém lá de cima quer que ela venha a lume? Uma ação entre amigos confidenciou Fernando Gabeira. Então é isso, o motivo é proteger um amigo do soberano.
A capital federal continua a mesma... lá a existência é uma aventura de tal modo inconsequente que deixaria Manuel Bandeira de cabelo em pé. O período republicano brasileiro está marcado por vários atentados à liberdade de imprensa, mas nunca houve tanta censura como nos últimos doze anos. Ações veladas contra um ou outro órgão de comunicação são praticadas quando se trata dos negócios públicos: leia-se mensalão, petróleo, etc. Isso se denomina autoritarismo, pois os tais negócios não estão protegidos pelo direito à privacidade.
O caso me fez pensar em liberdade de imprensa. O termo se refere ao princípio pelo qual um Estado assegura aos meios de comunicação social a livre circulação de suas publicações. Tudo garantido pela Constituição de 1988. Trata-se de algo mais restritivo do que liberdade de expressão, termo aplicado a todas as outras formas de comunicação, artísticas, inclusive. Saudades do presidente Juscelino, um democrata por excelência. Não é pra qualquer um dar o perdão para todos os que se rebelaram contra seu governo na década de 50. Sim, um democrata, na acepção da palavra. Não houve outro na história desse país...
Depois aconteceu a revolução de 1964, seguida do AI5 encerrando o período de liberdade política, fruto da era JK, que não se repetiu mais no Brasil. No plano cultural a censura acabou com as manifestações de resistência, o teatro engajado, as músicas de protesto, e os festivais. Entrei no túnel do tempo? Os pesados anos de chumbo vividos pela sociedade brasileira durante o governo militar estão de volta? Quer saber?
Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amiga do rei e da rainha louca que vem a ser contraparente da nora que Manuel Bandeira nunca teve, da Tarsila do Amaral e do saudoso Cícero Dias... Lá vou tomar banhos de mar/fazer ginástica/e andar de bicicleta! Lá é outro mundo como diz Bento, que no seu tempo de menino teve uma babá de nome Rosa para lhe contar histórias.
Ah, como eu sinto saudades de Pasárgada, cujo significado é campo dos persas. Por que? Só perguntando pro Bandeira. Lá todos são felizes numa paisagem fabulosa, um país de delícias, sem inflação, sem dólar alto, sem PT, sem Lulla, sem Delúbio, sem Cunha, sem Renan, sem mentiras esfarrapadas, sem a clássica frase: não vi, não sei, não conheço... O Lulla não conhece nem a Marisa, pode? Acho que vou embora para uma Pasárgada igual àquela Bahia dos sonhos de Caetano Veloso!
A autora é doutora em Estética e História da Arte pela ECA/USP