Articulistas

Coisas de antanho

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

A gente fica velho por fora, mas por dentro também. Envelhecendo o corpo, a cabeça - que pertence ao corpo – vai junto. É o caso da memória. Quanta aflição, Deus meu, numa mesa de pessoas da “melhor idade”. Me ajuda aí..., o nome daquele ator? aquele que trabalhou naquela novela...? que tá meio caidão...? o Antunes? não, não é Antunes, é... Angustiados,  todos querem ajudar. Ah eu sei..., sei exatamente de quem você tá falando, ele não foi casado com a...? aquela que era coreógrafa do...? gente, tá na ponta da língua, ele fez um filme recente, espera um pouquinho só...,  como é o nome da merda daquele filme? que saco!!! Calma, pessoal, calma! Acho que  eu posso ajudar – mais um na roda – ele foi entrevistado nesta semana pela...  aquela loira sem graça, do SBT, vocês sabem de quem eu tô falando, né? Então, diante de tamanho esforço, finalmente o nome explode na cabeça de um deles: Não é Antunes não! É Antonio Fagundes! Isso mesmo!!! Todos comemoram: Antonio Fagundes! Alívio geral.


No supermercado, então,  a memória é uma desgraça. Não sei por que os nossos amigos dos velhos e bons tempos sempre resolvem  fazer compras no mesmo dia e na mesma hora que a gente? Vontade de bater um papo, claro; matar saudade, claro. Mas e  o nome deles? Prevendo o pior, aceleramos o carrinho e, pilotando com exímia experiência, fugimos pelos corredores. Isso quando é possível. Às vezes não dá,  trombamos com eles.  Aí, o abraço inevitável, a cara de felicidade e o adjetivo salvador: “Queriiiiida”! Quanto tempo! Você não mudou nada,  nadinha, mas me conta, querida...


Um amigo meu, também desmemoriado, confidenciou-me que está passando por uma estranha experiência: a da memória ao contrário: não consegue se lembrar do que é necessário, mas  anda se lembrando exatamente do que  deveria ter esquecido. Confuso, pedi-lhe explicação. Cara, não sei por que, mas no meio da conversa ando soltando umas palavras antigas que ninguém usa mais, umas palavras  do tempo do onça... Outro dia, por exemplo, falando de roupa me escapou  “calça rancheira”, pode? Depois, o assunto era música, falei “radio-vitrola”. E para o espanto de todos, não é que  outro dia  deixei escorregar um “chofer de praça”! Tô numa baixa, cara,  todo mundo tá rindo de mim. Tô irritado com tudo isso, já não controlo o que falo, menos ainda a minha emoção.


A coisa acabou chegando aonde não podia chegar. Não gosto nem de lembrar. Uma vergonha. Eu estava na fila do caixa do mercado. Na minha frente, uma velhinha, coitada, toda atrapalhada. Primeiro, ela revirava a bolsa, não conseguia lembrar o CPF. Depois, preenchia, pela segunda  vez, o cheque. Surda, não entendia a tentativa de ajuda da moça do caixa. Ela cada vez mais nervosa. E eu do jeito que ando... Não deu outra, acabei explodindo: Dona, por favor, dá um jeito aí, não posso passar o dia nessa fila... Furiosa, a velhinha me  deu o troco: Calma, meu senhor, um pouco de educação não faz mal a ninguém! O senhor é um grosso!


Como me arrependo da minha estupidez. Completamente descontrolado, fui ao “fundo do baú” – tinha que ser ali - e voltei espumando com a ofensa mais esclerosada possível: ah..., vai cagá no mato, vai!!!


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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