No sistema viário urbano encontra-se uma grande diversidade de conflitos entre os diversos usuários do trânsito. São pedestres, ciclistas e condutores de veículos motorizados disputando um mesmo espaço. Como resultado, têm-se muitos acidentes com feridos e mortos.
Para mitigar esse problema, o engenheiro de trânsito dispõe de uma série de dispositivos, planos e uma parafernália de sinalização de trânsito. Apesar disso, em 2004 surgiu um novo conceito, o “espaço compartilhado” (em inglês, shared space). Este modelo leva em conta mudanças no desenho urbano, buscando integração do trânsito com as atividades humanas. A sua implantação ocorreu em cidades da Inglaterra, Dinamarca, Bélgica, Holanda e Alemanha. Atualmente, já foi adotado em cidades americanas, como é o caso de Chicago.
O espaço compartilhado se fundamenta na crença de que um espaço livre de regulações encoraja um comportamento mais responsável de cada usuário. Por conseguinte, pode-se obter um local com mais segurança e qualidade urbana do que se tinha com a sinalização convencional, que gera grande poluição visual.
Há cerca de quinze anos, Makkinga, Holanda, se tornou conhecida como a primeira cidade a adotar o conceito de espaço compartilhado. Grande parte de suas vias e calçadas foi reestruturada, retirando-se toda a sinalização de trânsito. Ao final do projeto, a cidade se deu conta que os seus moradores haviam vivido muito bem sem elas. Hans Monderman, especialista em trânsito, foi um dos proponentes do espaço compartilhado e um dos seus principais trabalhos foi a transformação de um cruzamento de cinco vias da cidade holandesa de Oosterwolde em uma praça pública com espaço compartilhado, onde circulam pedestres, ciclistas e veículos, em harmonia.
O leitor poderia perguntar: será que estes locais são seguros? As experiências das cidades que adotaram o espaço compartilhado mostram que eles são seguros, pois os usuários das vias devem prestar muita atenção e ter maior respeito, reduzindo a quantidade de acidentes.
O britânico Ben Hamilton-Baillie, especialista em desenho urbano, afirma que os espaços compartilhados fazem com que um local seja mais agradável, deixa de ser hostil e dominado pelo trânsito. Defende que, na ausência de sinais de trânsito, os motoristas devem demonstrar que são suficientemente inteligentes para ver o que está ocorrendo em seu redor.
Será que espaços compartilhados são indicados apenas para cidades europeias e americanas? Por que será que tantas experiências inovadoras e humanizantes do trânsito funcionam em outros países e não no Brasil? Infelizmente, em curto e médio prazos, essas ações não deverão ser aqui utilizadas. Antes, urge desenvolver uma cultura de segurança no trânsito e, mais que isso, o povo precisa crescer no quesito educação de maneira geral e civilidade.
O autor é engenheiro, doutor em Engenharia de Transportes, especialista em trânsito, e professor da UFSCar. Diretor de Mobilidade da Assenag e membro do Conselho Diretor da ANTP.