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O circo sem pão

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A discussão se repete nas antevésperas do Carnaval. Manifestam-se aqueles que são contra os subsídios dados pela prefeitura para as escolas de samba. Defendem-se aqueles que levam em consideração o clássico ensinamento o poeta Juvenal aos imperadores romanos: “Ao povo, pão e circo”. Atravessamos a maior crise econômica de todos os tempos, a arrecadação cai e os recursos são cada vez mais escassos. Temos problemas crônicos na infraestrutura da cidade, falta água, a urgência e a emergência na saúde ainda deixam a desejar. O zika vírus chegou a Bauru (coisa de cidade grande) e há previsões tétricas para este ano na área financeira. Centenas de prefeitos pelo País, resolveram suspender o Carnaval oficial em decorrência da penúria enfrentada pelo erário. Entenderam que existem prioridades maiores para os investimentos públicos.


Por outro lado, há os que defendem o culto à tradição. Quem gosta de Carnaval também mora no município, produz e recolhe impostos. A Secretaria de Cultura de Bauru espera 50 mil espectadores nas arquibancadas do Sambódromo para ver, cantar e torcer pelos 8 mil e tantos figurantes que vão desfilar na passarela. É muita gente para tão pouco espaço. Mas vamos lá. No Carnaval vale tudo. O que de dia é Maria, de noite é João. Nosso Sambódromo está completando 25 anos de existência. Ficou dez anos inativo ou a serviço do crack. Os precatórios milionários começam a estourar, cumulados de juros e correções porque os prefeitos, neste quarto de século nunca se incomodaram em pagar os desapropriados. A conta chegou. Nos anos 1980, o Carnaval de Rua de Bauru tinha por palco a avenida Nações Unidas. As arquibancadas de tubos de aço eram alugadas, montadas e desmontadas sob a supervisão voluntária do engenheiro José Cabral, por Célio Gonçalves e Eduardo Sampaio.


O investimento era autofinanciável com a venda de ingressos. E todos se divertiam. O prefeito Izzo Filho resolveu impor a sua marca, desapropriou terrenos remanescentes no Geisel e construiu o Sambódromo. Nada contra. Lamente-se que as gestões que o sucederam nunca conseguiram dar uma utilização permanente à passarela e suas instalações. Na Marquês de Sapucaí, a Prefeitura do Rio mantém escolas sob as arquibancadas e um museu a exibir fantasias e adereços das grandes escolas campeãs. Atrai milhares de turistas do mundo inteiro. A realidade aqui é outra? É verdade. Mas custa muito pouco cuidar da manutenção do patrimônio público, pelo menos. A impressão que se tem é que a cada Carnaval o Sambódromo tem que ser reconstruído porque levaram os fios, os holofotes e tudo o mais que é possível carregar.


A Prefeitura de Bauru ainda destina R$ 400 mil para ajudar as escolas de samba na confecção das alegorias. O prefeito Rodrigo Agostinho terminou o exercício passado com as finanças em equilíbrio. Se não sobra, também não falta. Recomendam o Tribunal de Contas e o Ministério Público que o sensato é dar prioridade aos serviços básicos e ao pagamento dos servidores, para só então pensar no Carnaval. No Bloco dos Irresponsáveis Fiscais, o maior do País, Rodrigo certamente não teria lugar. A porta-bandeira Dilma rodopia sobre R$ 111 bilhões do déficit orçamentário. Descobriu-se, agora, que R$ 50 bilhões das chamadas pedaladas fiscais foram pagos com outras pedaladas, ao sacar das reservas estratégicas do Banco Central, em vez do dinheiro da própria arrecadação.


Passada a folia, quem pulou no Sambódromo ou nos retiros espirituais para alcançar o céu, vai submeter o gestor público a julgamento. No mês que vem, os funcionários da prefeitura vão querer, pelo menos, a reposição das perdas inflacionárias nos seus salários. Advertia o senador Alcímedes, já na decadência do Império Romano que, em vez de oferecer pão e circo à população, o mais sensato é decidir sobre um ou outro.


Ainda bem que as crises econômicas, por mais cruéis e persistentes, um dia concluem o ciclo. Não há mal que sempre dure. Os carnavais, estes sim, são eternos. Somente mudam as datas, por causa de um sistema de cálculo inventado pela Igreja. O Carnaval cai no sétimo domingo após o domingo de Páscoa, ressurreição de Jesus Cristo. Por sua vez, a Páscoa se realiza no primeiro domingo após a lua cheia que se seguir ao equinócio da primavera no hemisfério norte (ufa). Qualquer que sejam os motivos, ou a falta de, divirtam-se. Depois do Carnaval, vamos ter que trabalhar.


O autor, é jornalista e articulista do JC

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