Eles ‘perdem a boa’, não demonstram equilíbrio para lidar com adversidades e, ao invés da conversa, partem logo para tapas e arranhões, apesar de toda a evolução da modernidade. Transformam o relacionamento em uma onda de raiva fulminante. Por que cada vez mais jovens estão manifestando ‘violência fácil’, ‘gratuita’, em relação ao outro?
Para os psicólogos, um conjunto de fatores proporciona o “coquetel de desajustes” emocionais. Os fatores vão da imaturidade à falta de regras, da insegurança à possessividade.
Para Carmem Maria Bueno Neme, a Pilé, mestre e doutora em psicologia clínica, com mais de 30 anos de experiência clínica na saúde mental, a explicação para o comportamento fora dos limites e padrões da boa convivência e respeito mútuo tem origem, entre outros fatores, no modelo educacional de quase ou total ausência de limites em casa.
Ou seja, não tem jeito: os barracos de jovens, adolescentes e até adultos têm origem no lar. “Muito disso acontece por interpretação errônea dos pais sobre a necessidade de exercer o diálogo em confronto com a cobrança que fazem se forem severos ou rígidos”, explica a psicóloga.
Elementos
Pressionados pela cobrança em educar com diálogo, os pais passaram a não ter mais noção sobre o que é e como estabelecer regras e limites, avalia Pilé, que também é pós-doutora e livre docente (PhD) em psicologia clínica pela Unesp, orientadora de pesquisas de especialização, mestrado e doutorado e diretora do Instituto Ampliatta – Psicologia e Saúde.
Mas existem outras causas. O Transtorno do Controle de Impulsos (TCI) é uma. “Não controlam os desejos e as necessidades para viver em sociedade. Há descontrole dos impulsos. Outro fator é o imediatismo presente nesses jovens. Eles não sabem postergar, esperar. E não sabem ouvir o ‘não’”, acrescenta.
Para a especialista, a busca do ajuste começa pelo espelho da família. “Pais estressados, com os processos de educação da família corrompidos, que vivem sob o efeito do consumismo exacerbado, não param para refletie muito menos conversar sobre esses desajustes, tendem a ceder aos apelos dos filhos. É um apelo horroroso, de jovens e adolescentes que praticam até a chantagem emocional para ter o que querem naquele instante”, amplia.
Na delegacia, o sintoma é o ciúme
Ciúme e possessividade são dois “ingredientes” presentes na maioria dos registros policiais. A avaliação é da titular da área em defesa da mulher, a delegada Priscila Bianchini.
“Seja em atos infracionais de adolescentes, seja para quem já tem 18 anos, o componente muito comum é o ciúme como estopim de violência entre jovens. A possessividade, com um querendo ter o controle, mandar no outro, está no mesmo patamar no procedimento criminal”, informa.
A experiência na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) também leva Priscila a apontar outro componente: “Em geral são brigas banais, causadas por desequilíbrio emocional. No caso de possessividade, o homem aparece mais como autor de ameaça contra a mulher. Mas também há reclamações de homens vítimas de agressões de mulheres. Lesão corporal porque uma ou as duas partes partiram para tapas, pontapés, com ofensa, é o mais comum”, finaliza a delegada.
Fragmentação
O professor de filosofia Fausi Santos reflete que a violência é um dos sintomas dessas relações sociais. “Há a fragmentação do sujeito e dos valores na sociedade. Há nisso a dificuldade em lidar com as frustrações da vida. E a violência é um sintoma disso. O jovem, nesse particular, primeiro fala e reage e depois pensa no que fez”.
A psicóloga Gretta Rodrigues de Souza adverte para a falta de habilidade em lidar com a emoção. “Em geral, são jovens que não tiveram afeto na infância e cresceram sem regra, com pais que, também fragilizados, os deixaram fazer tudo, exigir tudo. Esses jovens não sabem lidar com a emoção”, enfatiza.
Além disso, acrescenta Gretta, partem para namoro sem conteúdo para conviver com as estruturas da relação. “Não têm responsabilidade ou regras em casa e como vão lidar com as inseguranças do namoro e a disputa entre o casal, um querendo mandar no outro? Isso acentua as inseguranças já presentes”, opina.
Possessivos e intolerantes
A inabilidade em lidar com as demais pessoas é materializada em gritos, tapas e quebra-quebra nas relações entre os jovens que apresentam esses perfis de deformação na formação familiar e humana. “Se não têm respeito, tolerância, nunca praticaram a autodisciplina, esses jovens são jogados no caminho do descontrole”, reforça a psicóloga Carmem Neme.
Entre eles, estão também os possessivos. “É a geração do eu quero e tenho que ter. O outro virou objeto na relação e não pessoa. É posse, uma coisa e não um ser. E se você não faz o que quero eu bato, espanco, destruo, grito. E ainda tento justificar que sou vítima”, sustenta a psicóloga.
Mas os pais cometem outros erros, como a compensação pela falta de tempo para dar afeto, comenta. “Não sabem dizer não. E muitos desses jovens prolongam a adolescência com a dependência dos pais. E as fases de busca de amadurecimento e convivência social também são adiadas para bem depois dos 20 anos. E assim permanecem por mais tempo sem maturidade psíquica”, lembra.
Pilé ainda pontua a enorme crise de confiança vivido pelo adolescente. “Com todas as falhas na formação já mencionadas, muitos passam a querer vínculo afetivo para suprir algo e ocorrem novos problemas. A desestrutura psíquica aparece, há crise de confiança e uma solidão muito grande como outros componentes”. Um último fator, delicado e que precisa ser absorvido sem melindres. “Na observação clínica, vejo mudanças de comportamento de jovens com papéis diluídos. São meninas com comportamentos típicos de homens e o inverso. Isso não é bom, nem ruim, mas interfere nas formas de comportamento mútuo”, reflete Neme.
Histórias reais
Atualmente com 26 anos, ele namorou três anos e chegou a morar junto com a amada. “Tive um filho com ela, fomos morar juntos. Mas não deu. Era muito barraco. E ela partia para a porrada mesmo, direto. Não deu para mim essa parada”, conta o jovem.
Hoje, ele namora outra garota. “Estou bem agora, mas ela já me proibiu de ver meu filho no começo e foi na frente de casa fazer gritaria. Cansei de levar arranhão, tapa, de ver coisa quebrando o tempo todo. Agora fica claro para mim que era tudo insegurança dela, que acendeu um ciúme violento”, relata.
Já uma jovem afirma ter perdido as contas de quantas vezes o braço ficou roxo. Seu o corpo ainda tem marcas de dezenas de arranhões que se repetem na relação. “Parece doentio. Ele quer mandar, controlar tudo e eu não suporto isso. Já chegou a dizer que, se eu terminasse tudo, ia se matar. É uma loucura sem controle que me deixa zonza”, conta a jovem de 22 anos sobre o namorado com a mesma idade. E tem mais: “Com uma amiga é o inverso. Ela é quem parte para cima do namorado com frequência. Eu já disse para ela que isso é doentio, que é um descontrole, que é sem noção. Passa a agressão, ela concorda, diz que percebe que, além de não resolver, a violência a deixa ainda mais frágil em relação ao namorado. Mas aí vem outro fato e ela não se controla. Se não for à terapia, acho que isso não terá fim”, acrescenta a jovem. Os depoimentos acima são de histórias reais, em Bauru. Os jovens, porém, aceitaram falar sob a condição do anonimato. Para o psiquiatra Flávio Gikovate, no livro “Ensaios sobre o amor e solidão”, o ciúme e a possessão são mecanismos presentes em todas as pessoas. “Mas o extremo é o desejo de que o outro não exista a não ser como parte de nós. Os indícios de que o outro tem vida própria determinam a revolta e a irritação próprias do ciúme”. E se é ciúme, precisa ser resolvido, ou cuidado no divã.
Limites
Carmem Neme não deixa de citar, evidente, o modelo familiar de ausência de limites. “Os pais não querem, não sabem e não conseguem estabelecer regras mínimas de conduta e valores. E isso forma jovens tiranos e intolerantes a quase tudo. Todos esses elementos descarregam para a banalização da violência social”, enfatiza. E se as famílias estão desajustadas, a sociedade que as integra também. Assim como a escola. “E se formam as gerações dos valores perdidos, humanos e sociais, do apelo ao consumo em troca da falta de afetividade, o que reforça o erro. A escola, produto dessa origem, reúne todos os desajustes. E eles se propagam e os jovens praticam bullyng desde cedo e a fragilidade se propaga no meio social. A esta altura, reagir com agressão já é uma consequência do contexto”, pondera a psicóloga clínica.