O desequilíbrio emocional associado ao estresse resultante da correria diária do ‘mundo moderno’, combinado com hábitos alimentares inadequados, tornou o glúten mais uma vítima do modismo e das estratégias de consumo. A nutricionista Eliane Petean Arena, especialista em componentes metabólicos e das reações que cada nutriente traz para o organismo, alerta para o risco de vilanizar a proteína quando o problema está concentrado em um algoz principal: o próprio estresse.
“É preciso deixar claro que o glúten virou vilão quando as pessoas têm a digestão comprometida. Mas é preciso ser honesto em apontar que isso está acontecendo porque estamos desenvolvendo sensibilidade no organismo por outra causa, o estresse. E isso leva à intolerância. O glúten nessa cadeia é vítima, sim”, aborda.
Arena prossegue que o glúten exige uma quantidade maior de enzimas para que sua molécula seja quebrada no processo digestivo. “O fator desencadeante é o estresse. As pessoas perdem o controle sobre a origem, a causa. O estresse gera sobrecarga no organismo de substâncias que reduzem a quantidade de enzimas. E o organismo precisa das enzimas para quebrar as moléculas, como a do glúten que é proteína. Aí tem a formação do inchaço, o alimento não fermenta...”, elenca.
Sequência
A nutricionista aposta em uma série de efeitos a partir da causa, o estresse. “É uma série de manifestações em cadeia, no organismo. O estresse é problema grave de abrangência mundial. Quem equilibra as funções do organismo são as vitaminas e sais minerais. Isso tudo vai bem quando nos alimentamos direito e a quantidade é para o equilíbrio de tudo. Se o emocional estoura, faltam nutrientes para produzir enzimas. E o glúten, lá na ponta, vira o vilão. Mas ele, por si, não é”, reforça.
Por esta razão, Eliane pondera que “quem está em férias come carboidrato normalmente e quebra as proteínas tranquilamente. O fígado, o pâncreas, tudo funciona mais tranquilo, porque o organismo libera enzimas e a pessoa não contribuiu com cargas de hormônios para atrapalhar todo o processo”, sustenta. Outros comportamentos (além do psicológico) concorrem para que algumas pessoas desenvolvam intolerância a alimentos.
O que entra pela boca
Além do estresse, Eliane Petean convoca as pessoas a fazerem uma cruzada pelo binômio do bem-estar: combate ao estresse e boa alimentação. E, no segundo elemento, a tarefa também é árdua.
“O consumo de conservantes e alimentos com agrotóxicos, assim como o excesso de industrializados (enlatados, empacotados, encaixados...) prejudicam o funcionamento de órgãos como o fígado e esses órgãos não produzem o suficiente. É um ataque de hormônios, pelo estresse, e de produtos ruins para o organismo. Sem equilíbrio emocional, o corpo não reage. Sem equilíbrio alimentar, o desequilíbrio se acelera. É um processo. O corpo não digere ou digere mal”, enfatiza.
Por esta razão, se preocupar com o que entra pela boca é tão essencial quanto o equilíbrio sobre os fatores desencadeantes de estresse. “A pessoa desenvolve sensibilidade e isso pode levar à intolerância a algumas coisas, como o glúten. Aí vem alguém e tira todo o glúten. O abdômen diminui. O brasileiro tem mania de generalizar tudo. É claro que muitos perdem peso ao cortar a origem do glúten, os alimentos a base de trigo por exemplo. Mas não combate a causa”, critica Eliane.
A nutricionista é contra a retirada completa e permanente do glúten. “O processo já explicado gera uma intolerância que, em geral, é passageira. Mas as pessoas são drásticas e tiram o glúten de vez. Aí vem uma festa, come bolo e passa mal. E a culpa é atribuída ao glúten. O consumidor desacostuma o organismo sem a proteína e ele reage. É preciso avaliar o contexto dos hábitos alimentares e de vida. Cada ser é único e reage de um jeito”.
Eliane é crítica da linha nutricional funcional. “A linha funcional corta o glúten de uma vez. Eu argumento que essa medida também gera desequilíbrio. A senhora toma leite a vida toda e corta o leite aos 70 anos? Calma. É preciso avaliar outros fatores. Essa linha alimenta a indústria alimentícia e interfere nos hábitos de consumo. É preciso ser cuidadoso para não cair na onda. Não dá para padronizar ao falar sobre o organismo humano”, finaliza.
“Intoxicação mudou minha vida”
A fisioterapeuta Mariana Campoi Trípodi conta que mudou “tudo em sua vida” há quatro meses. Ele sofreu intoxicação por metais. Segundo os médicos, o processo inflamatório deu-se por alimentos industrializados.
Com isso, Mariana passou a não consumir mais tudo o que é enlatado, encaixado, embalado a vácuo, embutidos. “Passei por um processo de vasculite, uma doença autoimune. Aí tive de cortar tudo que pode gerar alumínio, conservantes ou subprodutos dos industrializados. Eliminei em alguns meses 10 quilos de gordura e adquiri bastante massa magra. Os industrializados ajudaram na intoxicação. O glúten veio nesse pacote, porque fica uma cola no organismo”, menciona.
Mariana diz que está consciente que não é o glúten que faz perder peso. “Eu faço uma dieta sem pão, sem nada de trigo. E isso me levou a perder peso. Mas eu cortei outros alimentos nesse processo. O bromato não tem mais, porque cortei o pão francês. Mas o benefício do peso veio no pacote. Não é o glúten. É a mudança em tudo e eu mudei tudo na minha”, esclarece.
A fisioterapeuta completa que o “pacote” incluiu cortar bebidas. “Não pode nada de álcool e nem refrigerante pet. O álcool ativa os metais. Terei de controlar a alimentação e nada em lata pelo resto da vida. Embalado, embutido, ensacado, tudo pra mim é tóxico. Eu compro muito orgânico e diversifiquei bem a alimentação com verduras, legumes e outros cereais. Fica mais caro, mas os resultados aparecem”, complementa.