A cada dia são introduzidos novos termos ou expressões para explicar o comportamento da economia brasileira. Nesta semana, economistas de um conglomerado financeiro pinçaram a expressão “sensação térmica” da economia.
Vamos investigar um pouco o que representa esta expressão. Quem acompanha meus artigos sabe que eu já abordei a questão de dimensionar o crescimento ou queda do Produto Interno Bruto pelo lado da demanda agregada ou pelo lado da oferta agregada. Do lado da oferta é analisar o desempenho dos grandes setores da economia: primário, secundário e terciário. Do lado da demanda as variáveis a serem consideradas são: consumo das famílias, investimentos, gastos do governo, exportações e importações de produtos.
A “sensação térmica” surgiu da leitura das variáveis que envolvem a demanda agregada. Neste particular, sapara-se a demanda doméstica do setor externo. Exatamente na demanda doméstica é que reside o problema.
O consumo das famílias depende de renda e crédito. Com renda em queda, quer pela falta de reposição salarial acima da inflação, quer pelo encolhimento do emprego, o crédito poderia ajudar na movimentação do consumo, contudo, com a necessidade em controlar a inflação, os juros são utilizados como inibidor do consumo dos bens financiáveis, portanto, não se espera muita coisa vinda por esta frente.
Por seu turno, os gastos em investimentos dependem de confiança no mercado interno, coisa que efetivamente não existe. Sem a Petrobrás dando o tom dos aportes financeiros, com incertezas do horizonte da efetiva recuperação econômica do país, os investimentos patinam, e de uma necessidade mínima de 25% do PIB nesta rubrica, o país não ultrapassará os 18%. Somente no longo prazo este quadro mudará.
Para completar a demanda doméstica, restaram os gastos do governo. Como esperar mais gastos do governo se há queda em arrecadação tributária, se rolar a dívida interna está mais cara por conta dos juros maiores e ainda devido à obrigação em demonstrar austeridade fiscal? Chegamos à “sensação térmica”. Se forem considerados somente os vetores da demanda agregada doméstica, portanto, o setor interno, segundo projeções destes economistas, o país terá retração na ordem de 5,3% em 2016.
O que pode atenuar o desempenho econômico é aproveitar a desvalorização do Real frente ao dólar e exportar mais do que importamos, o que vem acontecendo, com isso, o PIB cairia “somente” 4%. Indicadores nada confortáveis, indicando que por mais que não desejemos ser contaminados pela “crise econômica”, já fomos.
Se o diagnóstico é este, o prognóstico não é muito animador. O modelo de meta fiscal flexível defendido pelo ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, o que permitira até operar com déficit público caso haja queda na arrecadacação do governo, vai ao sentido contrário as necessidades de virar este jogo. E ninguém sabe ao certo qual é a estratégia da equipe econômica do governo Dilma para sair da crise, se é que ela existe.
Fala-se em contingenciamento de gastos, mas a conta não fecha e o anúncio da dimensão deste contingenciamento que deveria ser conhecida agora foi adiado para março. Por tudo isso é que continuamos fazendo a leitura que devemos ser proativos, não abrir a guarda, revermos permanentemente metas pessoais e profissionais e sermos estrategistas. Com ou sem sensação térmica ruim da economia, o indicativo é esmorecer jamais.
O autor é economista e articulista do JC