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Região de Bauru é celeiro de arte religiosa

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

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Artistas plásticas dão expressões diferenciadas a imagens de santos e até do Espírito Santo
Relicários viram peças bem decoradas com santos de resina enfeitados de pedras coloridas e alguns tem até com lâmpadas de led  

A região de Bauru é um celeiro de artistas que transformam a religiosidade em arte. Em Mineiros do Tietê, uma artista plástica usa a criatividade para fazer com que as cabaças se tornem santos simpáticos, estilizados e modernos que atraem os jovens. Ela participa de todas as etapas do processo. Planta as cabaças, colhe, limpa, trata e as transforma imagens diferenciadas. A cabaça foi uma das primeiras plantas cultivadas no mundo, não apenas para uso na alimentação, mas para ser utilizada como um recipiente de água. Ela pode ter sido levada da África para a Ásia, Europa e Américas no curso da migração humana ou por sementes que flutuaram através dos oceanos dentro da cabaça.

O tamanho das porungas, outra denominação, determina o santo que ela se tornará. Se tiver uma forma mais gordinha ou com pescocinho são destinadas a santos que tenham esse perfil físico. Para evitar que as cabaças sejam atacadas por insetos, elas são fechadas com um preparado que leva cola.

Em Ibitinga, uma empresária do bordado aposentada constrói relicários diferenciados. Usa as ideias que surgem em sua cabeça para recriar objetos personalizados e cheios de charme. O artesanato vem de uma família de ‘arteiras’ chamadas de “Bruxas do Bem”.

Em Jaú, a devoção pela Nossa Senhora de Fátima se transformou a vida de uma mulher. Ela fez cursos para aprender restauração de imagens em Ouro Preto (MG) e em São Paulo. Ela restaura imagens e customiza imagens de santos confeccionadas em gesso e resina. Tem um loja ao lado da matriz Nossa Senhora do Patrocínio.

Para conhecimento de todos existe diferença entre a arte sacra e a religiosa. Embora o conceito de arte religiosa e arte sacra se aproximem, há uma diferença essencial que as definem. A arte religiosa apresenta manifestações de cunho religioso, e a arte sacra, da mesma forma possui um teor religioso, entretanto, ela é destinada aos cultos divinos, ou seja, está relacionada com a ação de rituais.

Ambas possuem temática religiosa, no entanto, diferem quanto ao destino: a arte sacra é feita exclusivamente para ser apreciada nos cultos ou rituais religiosos por isso, está relacionada com os locais em que eles ocorrem (espaço sagrado ou litúrgico). Assim, podemos intuir que a arte sacra surge da arte religiosa e, portanto, toda arte sacra é religiosa, porém nem toda arte religiosa é considerada sacra.

Denominados de “Paramentos Litúrgicos” e “Roupas Litúrgicas” (vestimentas e acessórios), a arte sacra compreende a ornamentação sagrada: arquitetura das igrejas e templos, esculturas de santos, painéis no teto das igrejas, pinturas, gravuras, afrescos, vitrais, mosaicos e desenhos de passagens bíblicas, utensílios litúrgicos, vestimentas, dentre outras.

Sua função primordial é ornar os locais em que os ritos e celebrações religiosas ocorrem, envolvendo assim, as sensações de religiosidade e fé dos fiéis envolvidos, mediados por um ambiente sagrado chamado de “espaço litúrgico”.

Por sua vez, a arte religiosa pode ser representada por esculturas de santos, pinturas de passagem bíblica, no entanto, não está localizada nos lugares de culto e rituais religiosos. Nesse sentido, podemos pensar no afresco “A Última Ceia” (1495-1497) do pintor renascentista Leonardo Da Vinci, que se encontra na Igreja e Convento de Santa Maria da Graça em Milão, e, portanto, um local relacionado aos cultos sagrados, segundo o site Toda Matéria sobre arte sacra.

Relicários são produzidos em Ibitinga

A aposentada Custódia Di Rienzo conta que o dom foi herdado de sua avó portuguesa e tem um fornecedor que entrega as imagens feitas de resina

A arte de fazer relicários é recente para a aposentada Custódia Maria Ramos Di Rienzo, 71 anos. Antes de ocupar essa ‘cadeira’, ela foi bordadeira, empresária e como aposentada resolveu se dedicar a uma atividade que envolve todas as mulheres descendentes da vó Dioguina Martins Sampaio Pires, uma portuguesa com certeza!

“É um dom que vem de minha avó. Ela foi uma das fundadoras do bordado de Ibitinga. Eu tinha cinco anos, morava em São Paulo e vinha passar as férias aqui em Ibitinga na casa dela. Aprendi a bordar, fazia alguns. Me apaixonei por arte. Não só eu como todas as mulheres descendentes dela. Todas são guerreiras e arteiras. Cada uma numa determinada área, tem uma que decora e outras bordam.”

Para justificar como a arte entrou na família, Custódia Di Rienzo resgata a história das “Bruxas do Bem”. “Minha avó nasceu na cidade de Vila Real em Portugal. As mulheres que nascem lá são tidas como Bruxas do Bem. Elas benzem, dão tranquilidade para as pessoas, fazem orações. Essa filosofia norteou as mulheres da família aqui no Brasil.” 

Os bordados da infância deram lugar a empresária do bordado. “Eu tive indústria de cama, mesa, banho e edredons durante 42 anos. Depois que aposentei e fechei a empresa, fiquei com tempo livre. Construí uma casa porque morava em uma chácara e meus filhos já tinham casado. Tenho três filhas morando em São Paulo e um morando aqui.”

No novo imóvel, ela não pensou em fazer um ateliê. “Nem pensava nisso. Mas não aguentei ficar sem fazer nada. Tive que me ocupar. Faz um ano mais ou menos que comecei a fazer relicários ou oratórios. Não tenho um espaço específico para fazer arte. Estou pensando em alugar uma casinha para fazer. Vou esperar mais um pouquinho, porque a situação não está fácil no país. Hoje, faço na minha casa. Em umas mesas que tenho e com as ferramentas que também já tinha.”

Sem modéstia, ela confessa que cria sozinha. “Os modelos saem da minha própria cabeça. Eu viajo na maionese (risos). Tenho boas ideias. Agora pouco saiu daqui um rapaz que veio pedir uma. Não importo em dar ideias, quero que todo mundo fique bem. Sou uma Bruxa do Bem.”

Oratórios enfeitados  

A artesã Custódia Di Rienzo não constrói os oratórios, mas customiza com muito bom gosto. “Eu mando cortar as madeiras numa máquina de laser na medida que preciso. Depois eles lixam e pintam. Eu recebo a imagem de resina pintada, ai eu faço o acabamento. Não trabalho com gesso, afinal um trabalho demorado desses pode cair e quebrar e o cliente perde a peça.”

Compro o santo pronto aqui mesmo em Ibitinga. “Tenho um fornecedor, mas teria que comprar em grande quantidade. Quando chegar nesse patamar poderei comprar direto da fábrica. Porém, minha produção ainda é pequena para isso.”

Neste um ano de produção, a artesã acredita que fez cerca de 100 relicários. “Vendi 90. Estou fazendo uma encomenda de 10. Estou finalizando. Tenho mais uma encomendas de uma noiva que vai dar para padrinhos. Ela é do Mato Grosso do Sul e me pede 22 oratórios com mais ou menos 25 centímetro de altura com imagem de 15 centímetros. A cliente pediu que seja a Nossa Senhora Aparecida.”

De todos os oratórios confeccionados pela artesã a imagem mais pedida é a de Nossa Senhora Aparecida. “É a preferida dos clientes e minha também. Tenho muita fé nela. Sou beata de Nossa Senhora Aparecida. A vida inteira eu confiei nela. Rezo para ela proteger meus filhos e netos e acendo vela de sete dias toda semana em casa.”

A crença em Nossa Senhora Aparecida é que move a artesã. “O amor que eu tenho nela me faz criar os oratórios. As noivas me perguntam se sou devota dela para fazer tanta coisa bonita e eu afirmo que sim. Nenhum cliente escolhe o que eu vou fazer. Eles deixam eu fazer, com a inspiração da santa. Os preços variam conforme o tamanho e modelo, vão de R$ 150 a R$ 850. Tem alguns que ilumino com lâmpadas de led.”

Serviços: Instagram: @artenacasaazul

Artista plástica faz santos com cabaça em Mineiros do Tietê

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Ana Lúcia Bernardes Teixeira divulga o trabalho na rede social  

A artista plástica Ana Lúcia Bernardes Teixeira, 52 anos, sempre foi uma pessoa criativa, além de simpática. Mora em Mineiros do Tietê (65 quilômetros de Bauru). Um dia ganhou de presente uma galinha pintadinha feita de cabaça. Olhou para a ave estilizada e enxergou um santinho. “Fiquei imaginando como a porunga geraria uma santinha estilizada linda. Comecei a fazer e as pessoas amigas gostaram. Nessa época eu ganhava as cabaças. Fui criando e aprendendo a lidar com um material novo para mim.”

Ela se interessou pela arte de fazer santos a partir da cabaça. “Eu pegava a porunga e deixava do jeito que eu queria, no meu estilo. Ela é uma planta rasteira como a abóbora. Meu marido começou a plantar na fazenda. O que me permite acompanhar o crescimento delas. Elas variam de tamanho e forma. Cada uma serve para um santo. São vários pés, varia demais, são várias mudas. Elas vão dando diferentes cabaças. Tem umas que não têm pescocinho fica difícil fazer o santinho. Tem umas bem gordinhas que deixo para fazer o São Bento. Olho para as cabaças e vejo a carinha que elas têm antes de decidir qual é o santo que vou criar.”

Antes do santo ganhar ‘corpo’, a artista dá um tratamento para conservar a cabaça. “Abro uma a uma. Limpo dentro. Elas têm muitas sementes. Depois da limpeza, impermeabilizo com fungicidas. Faço um preparado com cola. A porunga é inteira fechada para não entrar mais insetos. A cada dois dias consigo deixar 15 prontas para fazer os santinhos. Tem algumas com 18 centímetros outras com 25 e até com 40.”

Quando a porunga não tem pescocinho ela é transformada em Nossa Senhora Aparecida. “A Nossa Senhora Aparecida não tem necessidade de ter pescocinho. Se a cabaça for meio inteiriça coloco o manto da santinha. Não tenho estoque. Eu faço sozinha. As pessoas encomendam e vou fazendo e entregando. Não calculo quantas já fiz, com certeza, mais de mil. Os clientes compram para presentear. Alguns dos meus santinhos foram para o exterior.”
O santo mais encomendado é o São Francisco. “É o que mais vendo. A mais bonita é a Santa Terezinha. Tem um rostinho delicado, tem as rosinhas que faço de biscuit. Eu trabalho em média 12 horas/dia. A cada dois dias coloco para secagem dois santinhos. É tudo muito delicadinho.”

Os santinhos estilizados são comprados principalmente por pessoas jovens. “Eles têm mais acesso à Internet e acompanham meu trabalho por lá. Acredito que como a peça é estilizada agrade os jovens que são menos conservadores. Tem um detalhe também. Como é minha filha que divulga o trabalho pelo Facebook, ela direciona para aqueles jovens que curtem o artesanato.”

A artista despacha os santinhos pelo correio. “O valor varia conforme tamanho e o santo. Alguns exigem um trabalho maior. Algumas peças são queimadas com pirógrafo, outras são iluminadas. Fica difícil um preço fixo, depende do trabalho de cada peça. Os interessados me mandam as referências e eu envio os valores exatos. Ela faz o depósito e depois eu entrego se for na minha região, ou despacho.”

Moradora ‘customiza’ os santos  

Célia Buck, residente em Jaú, aprendeu a restaurar as imagens e dá um tratamento diferenciado em material feito de resina ou até em gesso

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As imagens ganham cores diferenciadas, pequenos enfeites de pedras e desenho de flores 

Há 20 anos, Célia Regina Corrêa Buck, 57 anos, foi em busca de realizar um sonho. Aprender a restaurar e a customizar santos. Procurou cursos em São Paulo e Ouro Preto. Começou com a intenção de preencher o tempo livre, mas se deu tão bem que se estabeleceu. Tem uma loja especializada na cidade de Jaú (47 quilômetros de Bauru).  

“Eu sempre gostei muito de trabalhar com santos. A mulherada vai ao shopping e procura loja de roupa ou sapato. Eu sempre procurei lojas de santo. Quando eu descobri essa escola em São Paulo comecei a fazer os cursos. Tinha disponibilidade de tempo. Nos cursos os professores gostavam do meu trabalho e diziam que eu tinha bom gosto, que levava jeito para fazer esse tipo de trabalho. Fui orientada a trabalhar na minha cidade.”

As imagens de santos ganharam um espaço, uma loja há 15 anos. “A loja foi montada para vender só imagens, nosso principal produto. Mas pela proximidade com a igreja Nossa Senhora do Patrocínio, a procura por produtos como Bíblia, terços etc nos obrigou a diversificar um pouco. Eu não faço as imagens. Compro prontas. Tanto as de gesso como as de resina.”

A customização começou quando Célia Buck viu uma imagem pronta através da Internet. “Me apaixonei e decidi fazer. É  quase uma maneira de personalizar o santo, porque um trabalho sempre é diferente do outro. Eu uso pérolas e strass nos mantos. Trabalho com diversos tecidos, decoupagem em papel e strass em interpapel. Eu compro o santo pronto e faço a arte.”

Segundo ela, as imagens mais pedidas e mais vendidas são as de Nossa Senhora Aparecida, da Graça e Fátima. “As três são as mais vendidas. Minha fé é em Nossa Senhora de Fátima. Não porque sou portuguesa. Mas porque eu trabalho mais com a paróquia Nossa Senhora de Fátima, frequento lá, dou cursos. Frequento aqui a igreja mais próxima, mas lá é a minha paróquia. Santa Rita também é bastante procurada, por ser uma santa casada ela ajuda muito as famílias.” 

A localização da loja garante uma clientela diversificada. “Tenho cliente de todos os lugares. Eles chegam para conhecer a igreja e entram na loja. Temos o hospital Amaral Carvalho que trata de câncer então o fluxo de pessoas é grande. A igreja Nossa Senhora do Patrocínio é uma das mais belas do Estado de São Paulo, as pinturas que têm dentro dela são obras de artes.”

As pílulas do Frei Galvão atraem muitos fiéis também, comenta. “Temos o santuário do Frei Galvão aqui. As pessoas vêm buscar a pílula. Depois do dia 25 é distribuída aqui na igreja. As que sobram ficam na loja. Muitas pessoas não sabem que tem data certa para retirar e acabam procurando a loja. Aqui ouvimos muitos relatos de cura, especialmente dos paciente do Amaral Carvalho. Pessoas que chegam em estado gravíssimo e conseguem a cura, tomando as pílulas. Trabalho com imagem de Frei Galvão. A imagem do frei que tem no santuário foi pintada por mim.” 

Serviços: Facebook: catedral arte sacra 

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