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Ensaio sobre a infância

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Não importa para onde se vai, a gente mora na infância. É lá que está nosso melhor quintal, mesmo que bem pequeno. A gente cresce, aluga casa, compra casa, mas mora mesmo é na infância. O carro mais legal fica estacionado na infância. O carro dos nossos pais, aquele que não se vê mais. E o carro de madeira das nossas brincadeiras, cheio de tecnologia inventada. Quase voava.

Moramos na infância a vida inteira. É o lar que não só não acaba como vive sendo reproduzido pelos adultos anos e anos depois. De fato, só saímos da infância quando caminhamos por essa terra de gigantes, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, fantasiados de gente grande.

Na terna e eterna infância, o plástico é aço; o papel é mutante; o céu e o mar cabem na garagem; e o alfabeto é construção: cada palavra, um tijolinho. Só na infância ainda existe medo de escuro-monstro-trovão. E vergonha de falar com gente mais alta. É na infância dos nossos tombos onde se dorme ralado e se acorda sorrindo. Onde vale a pena morar mesmo com mais brinquedo nos comerciais de TV do que no nosso quarto.

Talvez seja por isso que, quando velhinhos, agimos como crianças. Porque, uma vez velhinhos, ficamos mais perto de casa. Sorte de quem cresce com a leveza emocional de ter sido um pequeno satisfeito. Não há dinheiro (daquele de mentirinha ou invisível) que pague por isso.

“Amy” é um documentário que concorre hoje ao Oscar. Narra a trajetória da cantora britânica que durou pouco e impactou muito. Depois de assisti-lo, o que ficou grudado na minha cabeça foi a imagem de Amy Jade Winehouse ainda criança e adolescente. Vídeos caseiros cheios de inocência, amizade e travessura.

Ela, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e Kurt Cobain, só para citar alguns nomes e apenas da música, morreram aos 27 anos. Não tiveram tempo de ouvir o cantor Tony Bennett dizer no fim do documentário sobre Amy: “A vida ensina você a viver se viver o suficiente”. Bennett fará 90 anos em 3 de agosto de 2016. Algo me diz que teve uma infância feliz.

O autor é editor executivo do JC

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