Outro dia, eu e minha esposa fomos jantar num restaurante chic. O atendimento foi ótimo, a comida deliciosa, o ambiente acolhedor, e valeu também pelos momentos diferenciados que passamos juntos. O preço foi alto, mas considero isto um investimento em nós mesmos. No dia seguinte, fomos a uma festa e nela começamos a conversar com um casal, e contamos sobre o restaurante chic, que era caro, mas tinha valido a pena. Daí surgiu um diálogo entre nós, que reproduzo a seguir:
Eles – E aí, tinha bastante gente no restaurante?
Nós – Tinha sim, estava quase lotado.
Eles – Com certeza, a maioria no restaurante eram pessoas bem de vida, e nós somos contra este tipo de coisa, pois apoiamos o socialismo que defende a igualdade entre as pessoas.
Nós – Não temos nada contra a igualdade, se isso for possível obter naturalmente, sem artifícios. Mas, acima de tudo, somos a favor da liberdade. Notamos que o socialismo busca a igualdade procurando eliminar qualquer mérito das pessoas, o que achamos antinatural. Entendemos que elas têm ambições e posturas distintas, umas ficam satisfeitas com a pescaria, enquanto outras estão preocupadas em inventar o celular. Isto é uma opção natural delas, que tem consequências diferenciadas nos trabalhos e nas recompensas.
Eles – Mas vocês não acham que esta liberdade do capitalismo propicia patrões gananciosos explorarem os trabalhadores?
Nós – Mas a liberdade no capitalismo não é plena, pois é um sistema associado à democracia e à república, onde existem leis que todos devem cumprir. Além disso, se ocorrer o que disse, esta falha não é do sistema e sim das pessoas. Falhas humanas podem ocorrer também no socialismo e ainda com mais gravidade, pois é um sistema que não tem a estrutura que acompanha o capitalismo, onde existem várias instituições soberanas que controlam o poder e as relações humanas. No capitalismo, uma pessoa poderosa que descumprir a lei pode ser processada e até presa, se for o caso, pois o Judiciário é uma instituição independente com esta função. No socialismo isto não acontece, pois a estrutura de poder é muito mais frágil.
Eles – Será!? Mas aqui no Brasil o poderoso pode se safar facilmente subornando as pessoas.
Nós – Se eventualmente ocorrer o que diz, mais uma vez está se referindo a falhas pessoais. Não é falha do sistema capitalista, pois ele tem leis que preveem punição para estes casos.
Eles – O dono do restaurante chic é o que mais ganha de todos os que lá trabalham, não é mesmo? Se fosse implantado aqui o socialismo, este restaurante não teria mais dono, com todos passando a ter o mesmo tratamento. Não acham isto mais justo?
Nós – Se isto acontecer, é o mesmo que fecharmos o restaurante, pois a função principal dele é oferecer um cardápio diferenciado a ser usado normalmente para ocasiões especiais. Assim, você não vai prejudicar somente o dono dele, mas também a cozinheira, o garçom, a faxineira, o guardador de carro, e um monte de gente que estava envolvida neste processo. Vai impedir também que o dinheiro que cada um recebia seja reaplicado em outras atividades, ajudando mais pessoas. É o mesmo que punir com o desemprego a mulher que borda casaco pras madames, só porque se odeia “madames”. É certo que no socialismo não haverá mais o dono do restaurante, mas existirá algo bem pior e poderoso, que é o “dono” do sistema, com toda sua turma de apoio e segurança. E eles são escolhidos mais pela fidelidade, e não pela capacidade e isenção. Também não são perfeitos, mas serão intocáveis e é isto que dá medo.
Eles – Não sei não! Acho que poderia ser feito como na implantação do socialismo cubano, onde os restaurantes eram do Estado e tinham também a cozinheira, o garçom e a faxineira.
Nós – Não é a mesma coisa. O princípio da igualdade socialista é muito bonito em teoria, mas na pratica gera acomodação das pessoas, pois não há recompensa para um trabalho qualificado ou criativo. Neste sistema, a produtividade e a qualidade caem muito, porque todos se perguntam: “qual a vantagem de me esforçar se vou ganhar a mesma coisa que o outro que não rende tanto”.
Eles – Discordamos. O importante é a igualdade entre todos.
Nós – Vocês falam de uma igualdade que é nivelada bem por baixo, e que vale mesmo só pro povão e não para os donos do sistema, que vivem bem melhor. Na liberdade capitalista, como nos EUA, é certo que há grandes diferenças sociais, mas a classe mais pobre está numa média melhor do que o povo que vive na igualdade socialista em Cuba. Como ilustração, basta constatar o que um brasileiro famoso que mora em Miami EUA publicou no Facebook uma foto recente de sua faxineira indo trabalhar com seu carro Toyota Corola seminovo, fato este impensável em Cuba.
Eles – O que somos contra mesmo é esta diferença social absurda que o capitalismo promove, e que está sempre aumentando.
Nós – Vocês estão mais uma vez equivocados. Estas diferenças sociais sempre existiram, como nos tempos feudais onde nem havia capitalismo. Foi, inclusive, no próprio capitalismo da época da Revolução Industrial (Europa, séculos 18 e 19) que estas diferenças sociais foram bem reduzidas. Aliás, um fator importante deste sistema é a liberdade que as pessoas têm em criar, empreender e investir, ajudando a movimentar a economia, e serem recompensadas por seu trabalho. Mas, o mérito maior do capitalismo é o que vem a reboque disto: a possibilidade de outros também ganharem, pois os empreendimentos propiciam novas oportunidades de emprego com muita gente aproveitando e, nesta dinâmica toda, o dinheiro circula mais de mão em mão, gerando riquezas que estavam latentes. Esta possibilidade não existe no socialismo, devido à falta de liberdade.
Eles – Desculpe um momento, mas precisamos ligar pra nossa filha.
Nós – Após a conversa com a filha, perguntamos: vocês sabiam que este celular que usaram é uma invenção capitalista?
Eles – Obrigado pela conversa, mas precisamos ir. Boa noite!
Nós – Nós que agradecemos. Boa noite!