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A melhor explicação

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Esse assunto envolvendo Lula, o tríplex do Guarujá e o sítio de Atibaia já saturou o cidadão brasileiro. Ninguém aguenta mais ouvir falar nisso. Cada um já deve ter sua opinião formada a respeito e ponto final. Há quem acredite que Lula é o proprietário e que está fazendo o que pode para safar-se do imbróglio. Já os simpatizantes da sigla petista defendem com unhas e dentes a honradez do ex-presidente: ele não é dono de nada e usa de favor os imóveis, graças às suas boas amizades. Chega de blá-blá-blá. Para mim, quem melhor interpretou esse verdadeiro saco de gatos foi a jornalista Eliane Cantanhêde, do jornal O Estado de S. Paulo.


Para quem não leu seu excelente artigo de 6 de março, intitulado “A jararaca”, vou resumi-lo, para que o leitor depois tire suas conclusões. Seguinte: a jornalista comenta que o instituto Lula recebeu R$ 20 milhões das empreiteiras da Lava Jato e o próprio presidente ganhou R$ 10 milhões dessas mesmas empreiteiras. Correto? Então, por que raios ele não comprou o sítio de Atibaia para desfrutar dele 111 vezes? E por que ele não deu para Marisa o tríplex do Guarujá? Dinheiro ele tinha, de sobra. E o que ele fez com o salário de oito anos na Presidência, com cama, comida, roupa lavada e uísque de graça?


Você não acha um raciocínio certinho esse da jornalista? Para mim é perfeito. Mas, ela não para aí. Prosseguindo, ela argumenta que se Lula não fez isso, de duas uma: ou ele é patologicamente pão-duro ou... a questão é política. Apesar de milionário, ele precisava do mito do menino pobre, que não tinha o que comer, perdeu um dedo nas fábricas e virou o eterno pobre dos pobres que veio ao mundo para salvar os desvalidos. Só assim, conservando a mítica do messias, do líder, do pastor de almas, do salvador da Pátria, Lula teria poder para jogar suas ovelhas para os confrontos de rua contra adversários, imprensa, o algoz Sergio Moro, o PSDB...


Sinceramente, o encadeamento de ideias é bastante razoável. Há mais um pequeno detalhe que gostaria de citar aqui. Como essa jornalista em questão é muito combativa, ela própria menciona nesse mesmo artigo que é muito insultada, “até de vagabunda”. Isto me leva a pensar como grande parte da petralhada é fascista. E o mais interessante é que o próprio PT confiscou o termo fascista para atacar os que não rezam por sua cartilha.


Impropriamente, apoderou-se de uma palavra que cabe mais aos seus asseclas do que aos seus adversários. Como deve ser desagradável para uma digna jornalista como Eliane Cantanhêde ser chamada, entre outras coisas, de “vagabunda”. Uma pessoa que está exercendo seu direito de informar, de deixar a população a par do que está ocorrendo e, sem ofender ninguém, ser afrontada com expressões toscas e grosseiras é, sem dúvida, um ultraje que deveria deixar rubra a pessoa cuja boca é capaz de proferir palavras tão sórdidas.


Isso é que é ser fascista... Como diz Marcia Tiburi, num livro recentemente lançado, ‘Como conversar com um fascista’, e que recomendo: o fascista é o suprassumo da personalidade autoritária, autoafirmação da ignorância, assinatura da estupidez. O fascismo sobrevive na animosidade. Colocar-se na posição de vítima pode ser um perigo e não garante a posição de sujeito de direito.


Numa sociedade democrática, há lugar para variados pontos de vista. Todos têm direitos e deveres. Ninguém precisa dar satisfações porque pretende ou não tomar parte nas manifestações de rua ou em qualquer outro tipo de acontecimento. Isso é com você e sua consciência. E você  deve estar convicto de sua decisão. Por isso, num caso rumoroso como esse do ex-presidente, cada um é livre para pensar o que quiser, manifestar-se como achar mais adequado, desde que de maneira civilizada. As selvas são o habitat de brucutus. Nas democracias costuma-se conviver civilizadamente e tirar-se o máximo proveito dessa familiaridade.


A autora é professora aposentada da Unesp, pedagoga, advogada e jornalista

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