Quinta-feira, manhã de 31 de dezembro. Enquanto a maioria preparava seus looks brancos para dar adeus ao “pesado” 2015, eu procurava desesperadamente uma borracharia. Na noite anterior, um buraco “cruzou” meu caminho. Ou vice-versa. Fato é que o rasgo foi tão extenso que não teve conserto e tive que trocar o pneu do carro. O meu azar seria um modesto presságio do que os bauruenses teriam que enfrentar este ano?
Uma coisa é certa: nestes três primeiros meses, vivemos “no buraco”. Ou melhor: buracos. Ou melhor: muitos buracos. E não estou me referindo ao cenário político ou econômico (nestes, aliás, o buraco é bem mais embaixo). Falo dos buracos físicos mesmo. Daqueles que fazem nossos carros sacolejarem, rasgam pneus, ditam o ritmo do trânsito, derrubam motociclistas.
O ano começou muito chuvoso (fevereiro, em Bauru, teve recorde histórico de precipitações) e a buraqueira é tão grande que já podemos até usá-la como ponto de referência. “Moro na frente do buraco 7 da rua Edmundo Antunes. Isso mesmo. Você passa o buraco 4 da Nações, entra na marginal, desvia do buraco 9 ao lado do restaurante e já é bem ali. Não tem como errar”.
Cansado das reclamações diárias da população e dos protestos bem criativos (um morador colocou uma privada em um buraco... nada mais simbólico para ilustrar a qualidade do asfalto), o poder público começou a reagir com o Tapa-Buracos. A operação tapou mais de 3.700 fissuras no asfalto da cidade em apenas um mês.
Teve muita gente que ficou contente ao ver o asfalto lisinho. Contudo, acreditem, teve quem não curtiu a reação. É tanta buraqueira que alguns bauruenses já criaram até um laço afetivo com um ou outro buraco da cidade. “Fiquei triste por terem coberto o buraco da Henrique Savi. Passava por ali todo dia e, quando o carro dava aquele solavanco, minha filha brincava de montanha-russa. Bauru já não tem tanta opção de lazer e ainda acabam com as que têm? Lamentável. Vamos protestar nas ruas”, disse uma mulher, que não terá a identidade divulgada porque o autor desta crônica acabou de inventar seu depoimento.
Com qual qualidade, entretanto, esses reparos vêm sendo feitos? Muitos bauruenses perguntam isso ao notar que a primeira chuva “esfarela” o asfalto e traz novamente a buraqueira. O Legislativo também fez esse questionamento na última sessão da Câmara e marcou reunião com a Secretaria de Obras para tentar entender o motivo de o buraco reaparecer cerca de 20 dias após o reparo. Entre os parlamentares, inclusive, tem quem encontre uma solução irônica ao problema: já que não dá para vencer os buracos, a prefeitura deveria licitar e comprar mais cavaletes para sinalizá-los!
Buraco aqui e buraco lá. No mês passado, a Nasa anunciou que, a 12,4 bilhões de anos-luz daqui, a galáxia W2246-0526, a mais brilhante do universo conhecido, está sendo engolida por um buraco negro.
Buraco lá e buraco aqui. Que a lembrança da buraqueira de Bauru e dos demais problemas da cidade (alguns, por sinal, bem mais graves) não seja engolida pelo buraco negro da nossa memória. Que as dificuldades sejam lembradas e que as propostas sejam muito bem analisadas em ano de eleições municipais. Como diz o adágio popular, “tatu velho não se esquece do buraco”. E você, vai esquecer?
O autor é editor do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru, especialista em Linguagem, Cultura e Mídia e não sabe trocar o pneu do carro