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O poço não tem fundo

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Depois de a economia brasileira ter passado pela crise do petróleo na década de 1970, depois de conviver com hiperinflação, tentar conter a escalada de preços com os Planos Cruzado (1 e 2), Plano Bresser, Plano Verão, Plano Collor, Plano Real, choque especulativo da moeda no final dos anos 1990, confesso que não imaginava que o Brasil fosse capaz de chegar ao ponto que chegou agora.


Em sã consciência nenhum economista ou analista de mercado conseguiria prever o mar de lama que o país atingiu. As análises de cenários para a economia brasileira sempre indicavam que o fim do poço estava por chegar, e quando isso ocorre há três principais caminhos: ficar parado a espera de ajuda ou ainda ficar parado esperando a morte chegar ou então olhar para cima e tentar sair desta posição.


Eu pessoalmente sempre acreditei que neste momento já estaríamos com a cabeça para cima buscando alternativas para sair com vida do fim do poço, mas concluo que o poço em que nos metemos é sem fundo, e temo pelo que possa estar por vir.


Sempre projetei que se as questões de governança no Brasil fossem limitadas ao questionamento das chamadas pedaladas fiscais, seria de bom tamanho que isso fosse esclarecido e para o bem do país e consequentemente para o bem da economia brasileira a manutenção da presidente Dilma Rousseff no poder, poderia ser menos traumático a todos, principalmente aos menos favorecidos. Mas as coisas tomaram outro rumo.


O governo não somente demonstra não ter qualquer estratégia para sair da crise, como está cada vez mais afundado em mar de lamas, indicando que o país está à deriva em sem comando há meses. A política passou a ser o alimento diário de tudo que ocorre no país.


Para piorar o cenário, a cada delação premiada, mesmo carecendo de investigações para ser confirmada, coloca na mesma vala políticos de praticamente todos os partidos políticos, demonstrando que as alternativas para sairmos deste marasmo são cada vez menores. Foi o tempo que o país tinha Estadistas com “E” maiúsculo que fosse capaz de costurar acordos e criar condições de governabilidade. Os atuais mandatários não têm credibilidade suficiente para dar uma guinada no país.


Enquanto cada um tenta salvar-se como pode, se protegendo em cargos, em conchavos, em mais corrupção para combater outras corrupções, o desemprego atinge quase 9 milhões de pessoas, a inflação está nas alturas, a recessão é verdadeira, as empresas estão fechando suas portas, a imagem do país está se deteriorando no exterior e, tudo que se conquistou aos mais pobres está ameaçado.


Há uma desesperança do ar. Qual o risco disso tudo? O populismo, o “salvador da pátria”, os aventureiros, enfim, os oportunistas que venderiam a população uma facilidade que não existe. Observo negociações para buscar soluções como injetar dinheiro na economia, utilizar reservas cambiais para movimentar o mercado, enfim, introduzir, de novo, o modelo condenável que nos trouxe até este momento.


Independentemente de crenças, ideologias, não podemos permitir que tais atos heroicos prevaleçam, pois se isso ocorrer perderemos o pouco que ainda protege a economia nacional.


A vigilância da sociedade civil organizada, das instituições constituídas, do Ministério Público, enfim, daqueles que ainda podem fazer a diferença, tem que ser redobrada para que evitemos que o caos em que o país se meteu não vire um beco sem saída. Se o poço não tem fundo, somente com uma corda poderemos nos salvar e neste particular temos que tomar muito cuidado com quem irá conduzi-la porque dependendo da forma que for utilizada pode nos levar ao enforcamento.


Sem mudanças colheremos o mesmo que colhemos até aqui. Isso tem que ser urgente, pois o pior dos mundos é permitir injustiça social e com cidadãos sem renda, sem emprego, sentindo-se indignos e sem futuro.


O autor é economista, articulista do JC

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