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Entrevista da semana: Clara Vasconcelos

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 5 min

Samantha Ciuffa
Presidente do Grupo Amigas do Peito, Clara vive em Bauru há 20 anos

Qual é o seu lema?  Escolha viver bem a cada dia. Esta é a frase de motivação que a entrevistada de hoje adotou para a sua vida. E é também este um dos conselhos que ela, Clara Vasconcelos, presidente do Grupo do Amigas do Peito, oferece às mulheres que procuram a entidade, projeto que levou mais de 5 mil pessoas às ruas no último domingo na “Caminhada pela Vida”.

“É preciso mudar o foco do medo. O medo é a falta de fé e ele não permite que você viva os seus dias. É muito melhor você resolver viver bem os seus dias”, acrescenta. Clara está no grupo desde 2005, quando foi diagnosticada com um câncer de mama.
Em Bauru há 20 anos, além do voluntariado, ela se dedica à profissão de perita criminal. Abaixo, Clara ainda fala sobre os desafios do voluntariado e do prazer em ajudar o próximo. Confira.

Jornal da Cidade – O Grupo Amigas do Peito levou mais de cinco mil pessoas às ruas no último domingo.  
Clara Vasconcelos –
Creio que essa foi a maior caminhada que já fizemos, mas, nos últimos três anos, a gente vem contabilizando um pouco mais de quatro mil pessoas em cada edição. A Caminhada pela Vida já é uma tradição em Bauru. As pessoas têm um compromisso com essa ação. Quem já participou volta e quem nunca participou tem vontade. Tudo por causa do objetivo, que é chamar a atenção para a saúde, de modo especial alertar mulheres para o diagnóstico precoce do câncer de mama.

JC – O grupo tem encontrado apoio e se fortalecido?  
Clara –
Bastante. O grupo só é possível porque tem muitos parceiros. Ele é organizado e coordenado pelo Amigas do Peito, mas é um evento da cidade. É feito por muita gente, empresas, instituições... Sozinhas, não temos condições de fazer nem 5% do que é feito.   

JC – Quando você conheceu o grupo?
Clara –
O Amigas do Peito existe desde 2003. Eu entrei quando fui diagnosticada com câncer de mama, em 2005. Desde o primeiro momento, meu médico me falou do grupo, eu liguei para uma voluntária no mesmo dia, fui orientada e comecei a participar das reuniões. A ajuda que eu recebi foi muito importante, tanto que estou no grupo até hoje. Hoje somos referência, não só para pacientes, mas também para quem busca informação sobre o tema.

JC – Qual é o maior desafio do Grupo?
Clara –
É a dificuldade das mulheres em conseguir acesso aos exames de rotina na rede pública. No mundo inteiro, a mastologia indica que a tomografia seja feita anualmente por mulheres acima de 40 anos de idade. Contudo, no Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) oferece o exame apenas para mulheres dos 50 aos 69 anos. As demais conseguem só depois de  uma grande espera e burocracia. Lutar contra essa falha é uma de nossas maiores bandeiras.    

JC – Depois da caminhada, quais são os próximos passos do grupo?
Clara –
Além das reuniões mensais feitas para receber as mulheres que estão em tratamento ou que receberam o diagnóstico, e prestar assistência a elas, nosso objetivo é conquistar uma sede para prestar esses atendimentos ainda com mais qualidade. Nós ainda não temos uma sede própria.    

JC – Foi o profissional que a trouxe a Bauru?
Clara –
Sim. Eu cursei engenharia civil na Unesp de Ilha Solteira e comecei a trabalhar em Dracena. O meu diretor era um escrivão de polícia aposentado. Ele me orientou a fazer um concurso para perito criminal. Eu fiz sem grandes pretensões, passei e fui para São Paulo fazer o curso de um ano antes de assumir o cargo. Foi tudo por acaso, mas gostei muito da profissão.      

JC – De São Paulo você já veio para Bauru?
Clara –
Não. Antes eu trabalhei em Dracena, por seis anos. Lá, fui da equipe que implantou a Polícia Científica. Eu tinha interesse em me mudar para uma cidade onde eu pudesse fazer especialização, mestrado e fosse possível trabalhar na perícia com engenharia. Foi quando surgiu o convite para vir para Bauru. Estou aqui há 20 anos.

JC – Você se sente acolhida por Bauru?
Clara –
Bastante. Os meus contatos eram restritos à polícia e academia (fiz duas especializações e mestrado). Mas depois que eu entrei para o Amigas do Peito, eu tive uma vivência diferenciada. É outro universo de relacionamentos e de amizades. O trabalho voluntário veio para enriquecer a minha vida. Minha mãe sempre foi voluntária e vivi isso com ela. Depois fui para a área técnica e vivi uns 10 anos fora dessa parte social.   

JC – Você já pensou em entrar para a política?
Clara –
Não. Eu já tive alguns convites, mas acho que se eu entrar para a política, esse lado voluntário vai ficar em segundo plano. E eu não quero isso. Acho que sou mais útil do lado de cá (risos).   Tudo o que eu vivo com o Amigas do Peito não é uma experiência minha. São experiências que eu vivi com as mulheres que passaram pelo grupo. Toda a nossa vivência, todo o projeto, tudo foi sendo construído com várias outras mulheres, com a vivência de todas as que passaram pelo projeto. O isolamento é a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa. É preciso aceitar, compartilhar e lutar.   

JC – Qual é a sua mensagem para as mulheres diagnosticadas com câncer de mama?
Clara –
Vivam cada dia de suas vidas. Eu acho que elas precisam mudar o foco do medo de morrer. O medo é a falta de fé e ele não permite que você viva os seus dias. É muito melhor você resolver viver bem os seus dias. Ninguém sabe quantos dias irá viver, independente de doenças. A minha frase é: escolha viver bem cada dia.

Perfil
Iracilde Clara Vasconcelos

Tem 51 anos e nasceu em Osvaldo Cruz

Adriano Campesi Tonin é o companheiro dessa ariana

Corintiana, ela tem um livro de cabeceira: Livro dos Salmos 
Quando o assunto é música, ela gosta de MPB e pop rock

“O Colecionador de Ossos” é o seu filme preferido
Nota 10: Para o espírito solidário dos voluntários
Nota 0: Para os egoístas
E-mail: peritaclara@hotmail.com  

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