Como seria uma cidade se ela fosse uma orquestra? Seu prefeito, o maestro, teria como regente assistente o vice-prefeito e seus secretários seriam os chefes de naipe. Os naipes são as famílias dos instrumentos onde temos as cordas, metais, madeiras e percussão.
Os chefes de naipe organizam seus grupos e os ensaiam rigorosamente. Cada instrumento (funcionários públicos concursados ou não) tem uma partitura (roteiro de atribuições) específica onde consta o que deve ser feito. O objetivo é que cada instrumento tenha o domínio da sua função para que esta possa ser executada com êxito nos ensaios gerais e com perfeição na apresentação, que é aberta ao grande público (a população).
É importante ressaltar que para fazer parte deste grupo é necessário requisitos técnicos muito específicos. Como seria se um trompetista resolvesse tocar violino sem nem saber como se segura o arco? Que seria da secretaria de economia se fosse comandada por alguém alheio aos assuntos econômicos?
Cada instrumento tem uma importância vital para a execução da grande obra. A grande obra é a partitura do maestro, e esta partitura é o Plano de Governo da cidade. Quando todos têm capacidade técnica para dominar o seu instrumento (função), fica possível tocar as notas da sua partitura (parte individual de cada funcionário no plano de governo).
Juntando todos os instrumentos de forma organizada, sem improvisos, o maestro consegue executar a grande sinfonia do seu governo. Numa sequência já bastante ensaiada, a população começa a sentir o sabor da melodia e se comove com harmonia de um grupo que parece ser único. Um grupo que reage tão pronto e sensivelmente aos gestos de seu condutor. A magia da arte de conduzir um grande grupo criando algo harmônico faz com que sua execução tenha um único objetivo, a música, a implementação do Plano de Governo.
Da mesma forma que existem músicas que não são do nosso gosto, existem Planos de Governo que nos desagradam, apesar que quando executados de uma forma orquestral nos dá os parâmetros de onde e quando vai chegar e terminar. O pesadelo ou paraíso têm datas e fases definidas.
Apesar que o verdadeiro pesadelo do ouvinte (população) é quando cada naipe resolve tocar uma música diferente (projetos diversos) e o regente tenta regê los ao mesmo tempo. O resultado é um verdadeiro pandemônio sonoro, onde o resultado concreto é uma grande dor de cabeça e músicas (projetos) mal executados ou pela metade. Um caos.
Interessante é que existe algo pior do que o caos sonoro, existe o silêncio sepulcral, onde os instrumentos que deveriam emitir algum som ficam encostados e os músicos torcem para que o regente também fique inerte. Mas essa inércia dura até o momento em que a plateia, cansada de esperar do lado de fora, derruba a porta do teatro e em desespero e aos berros exige que a orquestra faça aquilo para o que ela foi feita, tocar as melodias e acordes dando um ritmo e rumo ao governo. O público já pagou o seu ingresso há muito tempo e quer agora o resultado. Agora pergunto ao amigo leitor: -Que resultado podemos esperar de uma orquestra que nunca ensaiou e nunca tocou a mesma música?
A analogia que fiz usando a orquestra se deve ao fato de que quem governa ou faz parte de um governo, precisa ter em mãos uma partitura a ser seguida, um projeto a ser executado. Um projeto que faça parte de um Plano de Governo e um planejamento estratégico para implementá-lo. Improvisos devem ser postos de lado, eles são perigosos. É claro que na política infelizmente dois mais dois não são quatro, a política é repleta de melindres e vaidades.
Apesar que na área artística falar sobre vaidade e guerras de ego é muito comum. Opa! Se esses problemas ocorrem nas artes, como é que sempre somos agraciados com shows espetaculares e vemos uma unidade num grupo teatral ou orquestral? Eis a resposta: quando se abre a cortina do palco todos os problemas ficam na coxia (bastidor) e o único objetivo do artista é ser profissional e cumprir o seu papel, goste do colega de trabalho ou não.
Nos dias de hoje precisamos de uma orquestra onde os músicos sejam profissionais, técnicos qualificados, que se comuniquem, interajam, ensaiem bastante, e tenham bons e comprometidos chefes de naipe, pois as próximas músicas a serem tocadas serão muito dificeis, e para isso precisaremos de um maestro bem qualificado e com pulso firme. Em 1998, um dos maiores gurus da Administração, Peter Drucker, já dizia: -“As administrações no século 21 deverão ser como orquestras, pois uma orquestra não tem uma segunda chance”. Um abraço! E vamos tocar a música!
O autor é maestro