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Se Deus quiser...

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

A cama sabe que vai perdê-lo. Todo dia, às seis, é assim. Antes da cara do Sol, outra luz nasce  dentro desse velho com encontro marcado. As folhas no chão da calçada já se esparramaram à espera do companheiro. Vassoura, pá, sacos plásticos, ferramentas  da limpeza diária. Sem camisa, a cansada musculatura  desenha o corpo flácido. Chinelos arrastados em passos lentos e a mesma bermuda larga que, descuidada, deixa entrever o rego  que separa   as nádegas.


Em paz, ele se entrega à  limpeza. A vassoura risca o  chão num vai-e-vem-e-volta-e-vai sonoro, quase musical. O corpo velho, ainda espigado,  mantém  alguma elegância nos  braços dançantes. A calçada, de repente um salão, sugere a  poética imagem  de negro presidente em tango argentino.


A vassoura na calçada é a mesma que lhe varre a alma. Limpezas iguais,  por fora e por dentro. O braço que vai, volta com a lembrança dos filhos que moram longe, os netos tão distantes, o empréstimo consignado vencendo,  o fim do ano chegando, a pintura da casa, o décimo-terceiro,  a família enfim, o natal, os meninos correndo, alegria na casa, vem jogar bola comigo, vô!  Imagens boas  amontoadas, folhas da saudade.


A calçada limpa, a alma em paz. Ensacadas  as folhas, recolhidos os pensamentos, hora de coar o café. A mulher, antiga companheira, está para acordar, a mesa precisa estar posta,  seu diário dever.  A  velha chega à cozinha  e  não lhe dá sequer  seco bom-dia. A frase é a  de sempre, o mesmo  alfinete diário:  “já  cumpriu sua besta mania das folhas? Tá mais calmo agora?” O velho nada responde, anestesiou-se  à picada,  sabe que a mulher precisa desse alfinete tanto quanto ele precisa  das folhas no chão.  


Servido o café,  de novo o velho  volta à calçada.  O jornal, o banquinho, as costas no tronco lenhoso. Juntos, a árvore e o homem.  Juntos, o jornal e a sujeira dos homens. Coisas difíceis  de ler. Impossíveis de varrer.


Depois de um dia longo, anoitecendo, o velho volta   para despedir-se da árvore. Arranca tufos de matos que lhe agridem as raízes. Cumpre, assim, proteção carinhosa à amiga que, no chão, espalha  todos os dias  as folhas generosas. Até a manhã, se Deus quiser...


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - curso_romag@uol.com.br

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