O país resvala para o perigoso terreno da paranoia coletiva. É uma doença que contamina, pelo efeito em cascata. Ninguém sabe aonde pode chegar. O clima é muito parecido com a do início da ditadura militar, em 1964, quando parte da população mais conservadora começou a imaginar comunistas debaixo da cama. Hoje, usar vermelho se tornou tão reativo como numa praça de touros. Só porque é a cor do PT, a “nova ameaça comunista” que ameaça o Brasil. No Rio de Janeiro, um menino de nove anos sofreu intimidações na escola, sob a acusação de ser “petista”, e merecia ser espancado. O garoto havia ganho dos pais uma camiseta que reproduzia a bandeira suíça: cruz branca sobre fundo vermelho. “Que país é esse? Que ódio é esse que os pais estão passando para os filhos?”, perguntou o pai da criança no Facebook. Brasileiros contra brasileiros. “Não é a primeira vez que o Brasil passa por uma crise dessas. Nem acho que é o fim da História. Mas se alguém disser que sabe o que acontece, mente”, diz a historiadora Lilian Schwarcz, autora do livro Brasil: uma Biografia. Um adolescente que gritou “Não vai ter golpe!”, teve que ser escoltado pela polícia na Av. Paulista, para não ser linchado. A coisa deve ter começado na deterioração da economia – arriscam alguns. Quando pesa no bolso, vem o desemprego, as pessoas viram cão. O arcebispo de São Paulo, d. Odilo Scherer, foi agredido por uma mulher no final da missa de Páscoa rezada na Catedral, que o acusou de “comunista infiltrado”.
Outros analistas acham que a crise política remonta às últimas eleições, com a vitória apertada da presidente Dilma em outubro de 2014. Seu marqueteiro João Santana, hoje preso preventivamente, a fez prometer o que não poderia entregar. Teve que iniciar o segundo mandato fazendo exatamente o contrário do que havia prometido. Inútil culpar os gastos com os programas sociais. O que o governo não consegue frear são os gastos com o custeio da administração pródiga e incompetente. Acabou o tempo das commodities com preços elevados no mercado internacional. Os negócios da China se esgotaram e o Brasil, eterno exportador de matérias-primas, ficou sem a irrigação de moedas fortes. Deveria ter aproveitado o bom momento para investir em infraestrutura e dar competitividade à indústria.
A crise hoje é política, econômica e jurídica. Nunca se interpretou tanto a Constituição de 1988. Contamina até área da saúde. Dom Odilo reclamava dessa outra “paranoia”. Padres suspendem procissão e o tradicional aperto de mão. Fieis têm medo de receber a hóstia na boca. Medo da gripe H1N1. No entanto, todos vão aos estádios, se esgoelam, se abraçam, brigam e matam. O Ministério Público quer acabar com as torcidas organizadas, como se fosse possível proibir que os torcedores vistam a camisa do seu clube.
Hoje, a palavra mais pronunciada no Brasil é da língua inglesa: impeachment. Indevidamente traduzia por “impedimento”. Melhor seria “destituição”. O conceito foi criado na Idade Média, na Inglaterra, para conter o avanço dos senhores feudais. Ao povo, somente as migalhas. Tudo muito parecido ao baronato atual. A constituição norte-americana incorporou o instituto. Richard Nixon (1974), somente porque mentiu no caso da espionagem ao partido adversário em Watergate (disse que não sabia de nada), teve que renunciar à presidência dos Estados Unidos para não ser alcançado pelo impeachment. Os grampos telefônicos provaram que ele sabia de tudo. Lá, todas as conversas do presidente são gravadas para preservar os interesses do Estado. Aqui, Collor caiu por causa de uma perua Elba recebida como agrado do fabricante. Renunciou. O Senado entendeu que depois de iniciado o processo não há como deter o impeachment. No momento, há os que querem impeachment; outros pedem a renúncia da presidente; falam em cassação da chapa (Dilma e Themer) por vícios no financiamento da campanha eleitoral; e outros sustentam a ideia de um plebiscito para efetuar eleições gerais no país. O correspondente do Los Angeles Times esforça-se para entender todos os berros, próprios de uma democracia, ainda que imatura. Só não consegue digerir o fato de 35 dos 65 deputados da comissão que avalia o pedido de impeachment de Dilma, estarem indiciados em vários crimes. “São acusados de mais corrupção do que a presidente”. Ary Barroso, eterno otimista, tentava demonstrar aos iniciantes em 1942, um pouco do comportamento do brasileiro diante das dificuldades. Tudo vira festa: “Isto aqui ô, ô,/ É um pouquinho do Brasil, iá, iá.”
O autor é jornalista e articulista do JC