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Castelos de areia

Paulo Cesar Razuk
| Tempo de leitura: 3 min

O matemático, astrônomo e físico francês Pierre Simon Laplace (1749 – 1827) levou a mecânica newtoniana a um extremo lógico ao afirmar que com ela nada seria incerto e o futuro, assim como o passado, poderiam estar presentes diante de nossos olhos. Ao reduzir a previsão do futuro a um exercício mecânico, Laplace, simplesmente, tentou retirar da humanidade a possibilidade de exercer seu livre arbítrio. E, por conta do livre arbítrio, não se conhece nenhuma lei ligada ao comportamento humano minimamente próxima, em termos de ser geral ou precisa, daquelas com que estamos acostumados no mundo da Física.


Mesmo na Física, a intuição ou o senso comum muitas vezes nos engana, por exemplo, sabemos que objetos caem com a força da gravidade. Mas, considere o seguinte: um homem parado num terreno plano; ele segura uma bala na mão esquerda e uma pistola carregada com uma bala idêntica na mão direita. Segurando tanto a pistola quanto a bala na mesma altura, ele simultaneamente dispara a arma e solta a bala da sua mão esquerda. Qual das balas vai chegar ao chão primeiro?


As noções básicas de ciência que aprendemos no ensino médio dirão que, na verdade, as duas chegarão ao chão exatamente no mesmo momento. Mas mesmo sabendo disso, é difícil não pensar que a bala da arma não é, de alguma maneira, mantida no ar por mais tempo devido a sua velocidade.


O mundo está repleto de casos assim como esse, que desafiam a lógica do senso comum. Por exemplo, quando políticos se sentam com o propósito de elaborar algum projeto para diminuir a pobreza, eles invariavelmente confiam em suas próprias ideias sobre as razões pelas quais pessoas pobres são pobres e de como ajuda-las.


Alguns podem acreditar que as pessoas são pobres porque lhes faltam qualificações ou as habilidades necessárias para o trabalho ou porque não fazem um planejamento financeiro ou ainda porque não tiveram a oportunidade de ir à escola. Outros podem pensar que a falta de riqueza é decorrente da ausência de investimentos públicos e privados, de oportunidades, ou devido a sistemas deficientes de assistência social ou até a fatores socioambientais. Todas essas crenças vão levar a diferentes soluções, algumas das quais podem não estar certas.


A escritora e ativista política Jane Jacobs (1916 – 2006) em um de seus artigos, apontou que há um mito melancólico que diz que se ao menos tivéssemos dinheiro suficiente – centenas de bilhões de dólares – poderíamos nos livrar de todos os bairros miseráveis que cercam, principalmente, as grandes e médias cidades. Segundo ela, nos Estados Unidos, durante as décadas de 1950 - 60, “após os primeiros bilhões investidos em construções de baixo custo, elas se tornaram centros de delinquência, vandalismo e desesperança social ainda piores que os bairros miseráveis que deveriam substituir”.


Foge ao senso comum e chega a ser irônico observar um projeto nobre e cuidadosamente pensado para ajudar famílias a ascender à classe média, se transformar em edifícios mal construídos, cheios de infiltrações e rachaduras, praticamente, em ruínas em curtíssimo prazo. Apartamentos superlotados que, quando não se tornam abrigo de traficantes, continuam a concentrar pobreza.


Quando a causa ou o cerne da questão não é abordado, quando nossos governantes não investem no que é inicialmente necessário, planos em larga escala de subsídios e desenvolvimento urbano são especialmente propensos ao fracasso. Se de um lado se tem uma população, em sua maioria, não preparada para viver em um conjunto condominial, do outro se tem empreiteiras e empresários, em sua maioria, maximizando seus lucros sem qualquer escrúpulo.


A única opção hoje é gerenciar o que foi criado, gerenciar as demandas de um público que convive com a falta de civilidade e de perspectivas. Esse processo é longo e deve começar por um investimento maciço em educação gratuita de qualidade e pela reconciliação entre os princípios morais e o exercício do poder. Sem isso, nada é possível, sem isso é criar castelos de areia na beira da praia.


O autor é professor titular aposentado do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp – câmpus de Bauru

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