Na sexta-feira, os principais jornais do país garantiam existir votos suficientes para aprovar a abertura do processo de impeachment. Ontem, as notícias não eram tão claras e o vice-presidente Michel Temer, que estava em São Paulo, voltou a Brasília para evitar uma reversão na sua expectativa. Seis em cada dez brasileiros não querem Dilma no governo. Mas também não querem Temer. O próprio PT defende convocação de eleições, caso o impeachment se concretize. A perspectiva é de muita turbulência pela frente.
Hoje, no plenário da Câmara, com certeza haverá uma batalha de questões de ordem. Invasões na mesa diretora. Quem sabe, alguém mais ousada atire uma cadeira no painel de votação e interrompa a sequência de votos. Do lado de fora, um muro metálico de dois metros de dois metros de altura vai separar milhares de manifestantes pró e contra a impugnação. Pelo menos três mil policiais vão patrulhar as ruas de Brasília. Quinhentos bombeiros, unidades especializadas e agentes de trânsito estarão no local. Exército, Marinha e Aeronáutica estarão de prontidão com mais dez mil homens que serão chamados, se preciso. Será a maior mobilização policial da história do Brasil. Muito superior ao destacamento usado na Copa do Mundo.
O problema é que o país precisa se unir, não para salvar pessoas e cargos. Precisa se unir em torno de uma agenda mínima de reformas para sair da crise. Dilma já não governa. Temer, é uma incógnita. Se assumir, terá uma forte oposição ressentida pela frente. Será impossível atender a todas as reivindicações de quem votou a favor do impeachment e acha que merece retorno. Em política se diz que quem é comprado, sempre odeia o comprador. Sente-se mal ungido, com peso na consciência e um dia trai para se livrar da dissonância que o atormenta. Muitos políticos apoiam o impeachment pensando que assim estarão livres das investigações da Operação Lava Jato. Acreditam que os escândalos da Petrobras serão encerrados ou jamais solucionados, assim que a presidente Dilma Rousseff for afastada. Sonham com uma vida boa “after impeachment”. A mídia vai parar de resmungar e tagarelar contra a corrupção. Alguns editores e repórteres, viciados monotemáticos, não saberão mais sobre o que tuitar. Sessenta por cento dos 513 membros da Câmara dos Deputados, que irão votar neste domingo são alvo de processos judiciais ou são investigados por crimes que vão desde lavagem de dinheiro e fraude eleitoral, a exploração do trabalho escravo.
“Um país que tem uma corrupção histórica e estrutural, que tem Operação Lava Jato investigando, que tem várias pessoas que estão sendo acusadas e investigadas, terá uma presidente da República afastada sem nenhuma imputação grave”. Palavras do advogado-geral da União José Eduardo Cardoso, em compreensível tom exaltado. A questão é que o impeachment não possui a natureza penal dos delitos comuns. A pena através dele aplicável nada tem de criminal; é apenas política, relacionada a um ilícito político, aplicada por entidades políticas a autoridades políticas. “Não visa punir delinquentes, mas proteger o Estado”, como disse Paulo Brossard no caso Collor. Os ministros da Suprema Corte do país, durante sete horas discutiram a conformidade com o regimento, da maneira como o presidente da Câmara pretendia encaminhar a votação do relatório. Jamais entrou no mérito do conteúdo.
O jurista Miguel Reale Jr., um dos três autores do pedido de impeachment, também se vê cheio de razões. Afirmou que Dilma é que deu um golpe ao “mascarar” o déficit das finanças públicas para se reeleger em 2014. “Qual o crime mais grave, o de um presidente que põe no bolso uma determinada quantia ou de uma presidente que, pela ganância pelo poder, não vê limites para destruir a economia brasileira?”, pergunta Reale Jr.
Ele mesmo responde: “Furtar um bocado de dinheiro é muito menos do que furtar a esperança de futuro”. Enquanto ele falava, atrás da tribuna deputados seguravam placas que diziam: “Tchau, querida”. O país é que terá de desatar todos esses nós mentais. “Só mesmo por Deus!”, como costuma apelar meu colega Pedro Norberto.
O autor é jornalista e articulista do JC