Tribuna do Leitor

Qualquer coincidência é mera semelhança!

Cesar Augusto Teixeira de Carvalho - Professor Doutor aposentado do Depart
| Tempo de leitura: 3 min

Fernandinho e Dilminha trabalham lado a lado numa fábrica de balas, na secção de empacotadores, onde a bala mais desejada de todas tem o nome de “pedalada”. Entretanto, existe uma severa lei na fábrica, conhecida como “crime de responsabilidade”, que proíbe o furto de balas e, caso isto aconteça, o infrator pode ser impichado de seu emprego. Quem fiscaliza o setor é o malvado gerente Eduardinho, que tem um relacionamento respeitoso com Fernandinho, pois este é jeitoso no trato e também é um bom funcionário, o mesmo não acontecendo com Dilminha, além do que ela é muito grosseira e está ligada ao pessoal barulhento do sindicato local.


Um belo dia, no trabalho, Fernandinho vê uma bala “pedalada” dando sopa e nem se preocupa com a lei, saboreando-a com todo prazer. Como gosta da bala, noutro dia pega mais três e leva para seus netinhos conhecerem, que também a adoram. Como não acontece nada, Fernandinho faz isso sem se preocupar habitualmente durante 40 dias, totalizando ao final 120 das balas “pedalada” surrupiadas.

O gerente Eduardinho fica sabendo por uma denúncia de alguém próximo, e chama a atenção do Fernandinho, mas não encaminha seu impichamento por crime de responsabilidade, achando que seria um exagero. Fernandinho entende, agradece e promete não mais usufruir das pedaladas.


Dilminha, que trabalha ao lado, conhecendo o que Fernandinho fez e como não aconteceu nada, se aproveita, e leva pra casa 2 mil balas “pedalada” no primeiro mês para distribuir para sua família. Todos adoraram a bala. Não acontecendo nada, no segundo mês leva mais 3 mil e, como ninguém da fábrica percebe ou denuncia, este processo continua num crescendo durante um ano, onde se acumula um total de 100 mil pedaladas surrupiadas.


O gerente Eduardinho acaba sabendo devido o enorme buraco criado na contabilidade das balas, bastante perceptível pelo volume, e sem muita conversa diz que vai levar seu caso para diretoria da fábrica, com a sugestão de impichar Dilminha do seu cargo.


Ela fica extremamente revoltada com o tratamento desigual e grita pra todo mundo ouvir que foi injustiçada, pois o que fez foi o mesmo que Fernandinho também tinha feito, e agressivamente pede satisfação ao gerente Eduardinho. Este não se abala, e justifica afirmando que as situações dos dois eram bem distintas, uma vez que Fernandinho pedalou apenas 120 balas durante 40 dias, enquanto ela pedalou 100 mil balas durante um ano. Não se conformando com os argumentos do gerente, Dilminha diz que ele nunca gostou dela e por isso está se vingando ao encaminhar seu impichamento.


Indignada, começa a mobilizar seus amigos da fábrica ligados ao sindicato para fazerem passeatas com cartazes e palavras de ordem a favor dela, e não cansa de dizer que esta atitude é um golpe contra a liberdade democrática da fábrica, inclusive falando para as pessoas de fora da fábrica que nada têm a ver com a história. E a luta prossegue com grande possibilidades de Dilminha ser impichada do emprego pela diretoria da fábrica. Mas, corre à boca pequena que as pedaladas serão apenas o pretexto legal e, ao que tudo indica, ela será impichada mesmo porque era uma péssima funcionária.

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