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Almoço grátis ou duas saladas?

Marcondes Serotini
| Tempo de leitura: 3 min

O imaginário da nômina em economia, esta área conturbada e polêmica das atividades de um país, é recheada de metáforas e analogias. Sim, a economia anda pari passu com nosso dia a dia, sendo responsável pela manutenção ou não de governos, sistemas de governos e também de democracias. Assim, devido ao seu poderio, as lides econômicas perpassam nossa rotina de forma contumaz.


Confesso que não consigo entender a política, muito menos quando ela se mistura à economia. Tente explicar àquele senhorzinho que os dias de hoje são melhores que os de ontem, quando a inflação era de 80% ao mês. Ele tinha um dinheirinho, resultado de suas economias e do sítio que tinha vendido. O rendimento lhe permitia viver bem, comprar seus remédios e guardar ainda um valor de maneira tal que seu capital não fosse dilapidado. Hoje, com 0,5% ao mês, ele prefere aqueles tempos. Lógico que a inflação é um dragão que não se pode nem brincar, mas as nuances da economia permitem essa ira do nosso personagem de idade provecta.


Quando se fala em azeitar a economia interna, aumentando as ofertas de crédito para que as empresas produzam mais, gerando empregos e renda, vem outro a dizer que os juros têm de ser aumentados, porque essa “festa” de dinheiro fácil promove uma situação de possível inflação e bolhas de endividamento. Juro que não entendo. Outro dia o Lula ia ser preso, o dólar caiu. Semana seguinte, quando ele ia virar ministro, o dólar caiu também. Era pra ser o contrário. Continuo boiando...  


O grande soba da economia brasileira, oráculo de várias gerações de economistas e respeitado por seus comentários ácidos e contundentes, o sr. Delfim Neto, que se jacta a criticar os gastos públicos, a balança comercial, os políticos fisiológicos que desmontam os orçamentos da União, foi agora pego com a boca na botija. Quando participava deste ou daquele governo, recebeu milhões para dar pareceres favoráveis a lobbies de empreiteiras. Um filhote da ditadura que age da mesma maneira que todos: contra o Brasil e contra os brasileiros. Não mereceria talvez nem estas linhas.


Certa feita, ao ler estes artigos imensos que a matéria econômica enseja, a gastronomia foi tema. Num deles, o autor citava que não existe almoço grátis, numa alusão à ação e respectiva reação dos componentes econômicos diante de uma política econômica, principalmente de governos. Noutro, o articulista afirmava que pode se fazer de tudo na vida, mas ninguém come duas saladas.


A realidade mostra exatamente o contrário e a ilustração encontra-se sob nossas barbas. Constata-se que a maioria dos políticos conseguiram, ao longo desses anos, não só o almoço de graça. O café da manhã, o jantar, a ceia de Natal foram garantidos para eles, asseclas e parentes por várias gerações vindouras. E a “parábola” de que ninguém precisa amealhar muita coisa porque não se come duas saladas não foi contada para essa gente. Quantas saladas existirem, quantas serão necessárias para a insaciável ganância pela coisa pública, privatizada nessa hora.


Acabar com esse descalabro é função das nossas instituições, com a Constituição debaixo do braço, para que não se corra o risco de se dar um tiro pra cima ou no pé e jogar fora anos de resistência e redemocratização. Chegou a hora do basta. Na verdade, é preciso que não se coma duas saladas da horta pública, nem se almoce gratuitamente no refeitório hediondo da corrupção.


O autor é cronista e colaborador de Opinião

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