Pronto, confesso. Eu também recebi propina. Constrangido, assumo a minha culpa. Fazer o quê? A responsabilidade pela sujeira deste mundo não é só minha. Queiramos ou não, agora é assim, muitos se vendem e tudo se compra. Em cada final de ano, confesso, tenho sido comprado.
Na calada da noite, eles chegaram ao portão da minha casa. Eram três, muito jovens, e, sem qualquer pudor, passaram às minhas mãos sujas um panetone, um litro de vinho e um cartão de natal, agradecendo mais um ano de harmoniosa convivência. Eram os corruptores, os meninos universitários da “república”, os meus vizinhos do lado direito. Todo ano, aproveitam o espírito natalino para me azeitar com tais gentilezas. Certamente me acham um corrupto dos mais desvalorizados, já que com tão pouco me subornam. E assim pensam garantir o meu silêncio para que eu não acione o 190 da polícia, que colocaria em risco as suas enlouquecidas baladas noturnas. Elas começam por volta das 22 horas e, num crescente de insanidade ruidosa, meninos, meninas e todos os demais gêneros soltam berros alcoolizados, dançam e se pegam, urram e mergulham na piscina barulhenta. Sob o batidão eletrônico de estourar os tímpanos, entregam-se a um vale-tudo de mais uma noite sem lei e sem Deus.
A festa dionisíaca engole a noite toda e só termina em meados do dia seguinte. E eu, o vizinho caretão, fico rolando e xingando na cama insone. Revoltado (mas sem nenhuma inveja, é bom que isso fique bem claro!), fico imaginando, com o desprezo dos homens probos, o que estaria rolando naquela festa do pecado tão próxima de mim. Aliás, separada apenas pelos limites de um muro, mas muito por décadas de aniversários. Dói um pouco pensar assim, culpa da minha cédula de RG, hoje amarelada e colada com uma tira durex.
Recebi propina sim, mas como recusá-la em época tão natalina? Mas se não chamo a polícia, não é por causa desse panetone barato. As razões da minha inação ainda não me são claras. Será por ter sido, um dia, jovem como eles? Ter sentido o peso dessa fase? Nessa idade, tudo de bom acontece, todo vento é favorável, mas que a barra pesa, pesa. Talvez por isso o tamanho da necessidade de se esgoelarem. Seria o vulcão da testosterona e do estrogênio explosivos? O medo da competição selvagem que os espera? A pressão paterna? Tudo ainda por fazer, e eles se sentem tão despreparados e, em verdade, tão despreparados estão. É bem complicado esse rito de transição. Daí a catarse dessas baladas sem juízo, se bem que não consigo imaginá-las ajuizadas. Como seriam? Seria tudo isso? Ou nada disso? Não sei.
Só sei que eles me visitam no final de cada ano, porque panetone é presente datado. Contudo, outro dia, aliás outra noite, tocaram a campainha às duas da manhã, bem no meio do meu sono profundo e no auge da balada. Assustado, fui até o vidro da sala. Logo os reconheci. Por que estariam ali?
Uma ideia idiota sussurrou a possibilidade de que me viessem convidar para a balada que fervia. Ideia de jerico, claro! Foram logo me explicando que um deles tinha bebido tanto e tão louco ficara que nem a drenalina da festa nem a cara bonitinha das meninas o satisfaziam mais. Queria arregaçar tudo e, mais não podendo ali, resolveu detonar. Aos berros, anunciou-se homem-aranha e, num salto só, pulou o muro do meu quintal.
O problema, claro, era a possibilidade de o meu rottweiler (que nunca está bêbado) dar de cara com o infeliz. Entramos todos apressadamente no quintal para evitar o pior. Vasculhamos tudo, as moitas dos jardins, as copas das árvores, o telhado da casa, a toca do botijão de gás, a casinha do cachorro... Nada. Com certeza, o etílico aranha curtiu tanto pular um muro, que saiu pulando os dos vizinhos também.
Os meninos retornaram à festa maluca e eu, claro, para a minha cama. Nela, fiquei rolando em mais uma noite perdida, escarafunchando uma razão para o gesto alpinista. Nenhuma explicação. A única coisa idiota que me ocorreu foi a de que muita gente, no escuro da noite, pula a cerca, mas muro não. Coisa imbecil! Melhor dormir. Mas como fazê-lo com o inferno e todos os seus pecados bombando tão perto de mim? Incomodado, mudei de casa.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras