No mundo da criminalidade não se consegue apurar com mínima margem de acerto quantas vezes o Viaduto do Chá foi vendido, quem comprou, quem vendeu e a que preço. O que se sabe é que muitos ofereceram à venda esse espaço histórico da cidade de São Paulo, muitos outros se interessaram pelo negócio, mas venda mesmo fica esmaecida pelo silêncio cúmplice do comprador quando descobre que foi enganado e pelo ardiloso vendedor que desaparece tão logo concluída a operação e recebido o preço da venda em dinheiro contado nota a nota.
Difícil confirmar a história quando um deles não quer ir para a prisão e o outro não aceita ser publicamente desmoralizado como incauto, Daí para a imprecisão das vendas efetivamente efetuadas bastam poucos e penosos passos, lentos, desconfiados e silenciosos. E a história se repete de tempos em tempos, porque a população de incautos ambiciosos é imensa e eles raramente desistem depois de induzidos com o bom negócio.
O ser humano que realiza uma façanha desse porte é muito especial, discreto, ardiloso, perpicaz treinado especialmente para conquistar a confiança do incauto e essa confiança durante os detalhes operacionais é imensa e carregada de segurança porque todo incauto tem absoluta certeza de que a sorte lhe sorriu ao sensibilizar-se com o negócio oferecido e que conquistará, digamos, a preciosa e gloriosa prenda que chamou sua atenção no negócio.
O deputado Federal Waldir Maranhão (PP-MA) recebeu no seu aconchegante colo uma dádiva celeste representada pelo cargo de vice-presidente interino da Câmara dos Deputados que lhe daria pompa, conforto e glória com mínimo esforço e no bojo da crise política que vivenciamos estava no cargo e na hora certa para substituir Eduardo Cunha na Presidência da Câmara dos Deputados, glória das glórias para parlamentar obscuro, membro do baixo clero que, tão logo empossado requisitou jatinho oficial para exibir-se como filho vitorioso do Maranhão que lhe empresta o patronimico. Para lá foi quando não deveria ter ido e numa curta viagem de fim de semana solitariamente foi sensibilizado como quem tira coelho do chapéu a dar pela invalidade das sessões de impedimento realizadas nos dias 15, 16 e 17 de abril na Câmara dos Deputados. Proeza das proezas, sem ouvir ninguém decidiu usurpar competência do plenário e remeteu ofício formal ao presidente do Senado Federal comunicando a façanha. Acabara gloriosamente de comprar o Viaduto do Chá e que se dane o resto.
Esse ato solitário praticado no âmbito da Câmara dos Deputados e muito depois de exauridos os trabalhos referente ao Impedimento naquela casa, não desfrutava de mínima fundamentação jurídica e foi ignorado pelo presidente do Senado, com forte carga de desmoralização e acabou cancelado por seu próprio autor. Na prática – e prática tão afoita como lamentável – o vice-presidente interino foi induzido a cometer absurdo desse porte, exibindo sua faceta atrevida e incauta, muito parecida com a ação do comprador do Viaduto do Chá, com uma diferença fundamental porque não há como destruir a documentação anulatória das sessões do impedimento já esparramada por todo o território nacional. A gloria possivelmente almejada transformou-se em amarga e irremediável tragédia que desmoralizou o incauto parlamentar e carimbou sua biografia.
Pena que autor ou autores intelectuais numa trama dessa porte – e certamente eles existem - permaneçam nas sombras e não apareçam para arcar, conforme o caso, com aplausos ou custos de tamanho atrevimento político num momento delicado da vida nacional. E assim vamos exercitando nossa vivência republicana.
O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias.