Após uma semana marcada por caras, bocas, mentiras e poses, vamos, sim.
O Roberto é um “superador”. Quando criança, ajudava o pai em trabalho duro no cemitério. Também recolhia coisas da rua, até vidro, para vender. Na pré-adolescência já labutava em supermercado. Jovem, abriu lanchonete, que faliu. Saiu de São Paulo e batalhou a vida no Rio. Quando apostou numa loja em shopping popular de Madureira, o lugar todo pegou fogo. Ele não tinha seguro de nada. Para piorar, outra tragédia, a maior: o filho, que dava a maior força, morre num acidente. Roberto nunca desistiu. Num sebo, pagou R$ 12 por um livro sobre ervas e temperos. Contrariando a lógica, voltou a abrir um negócio do jeito que deu, com o dinheiro que não tinha: passou a vender... ervas e temperos. Hoje, vive bem e sua loja tem senha para entrar. Um ex-chefe falou sobre ele: “Perto do Roberto sou patrão-aprendiz. Aprendi muito com esse cara batalhador”. A história foi ao ar durante a semana no programa de Ana Maria Braga.
A Kauany é uma “reconhecedora”. De origem sem bens ou status lá no interior do RN, morou no sítio Carnaúba Torta e nem TV tinha em casa. Sonhava em ser jornalista. Estudava embaixo de árvore, ouvia notícias no rádio até de madrugada, ajudava os pais em tudo... Cresceu, não passou no vestibular que desejava, mas entrou na faculdade de serviço social em Mossoró. Em 2012, jornalismo, enfim! Estudava de manhã em uma faculdade, estagiava à tarde e voltava a estudar na outra à noite. Dormia na casa de amigos, alternadamente, porque não tinha teto próprio. Durante a festa de formatura em serviço social, exibiu orgulhosa, do alto da escada e na frente de todos, uma placa: “Meus pais, meus heróis”. Depois foi a um canto e voltou com uma enxada. Ergueu com as duas mãos seu troféu da roça. Ao descer, foi envolvida pelos braços dos pais Nilson e Creuza sob aplausos e lágrimas gerais. A cena comoveu internautas e, hoje, deve ser alvo de reportagem no Programa do Faro (Record). Ah, Kauany, enfim, também pegará diploma de jornalista no início do ano que vem. A enxada (“ela conseguiu me formar”) abriu mais esse caminho.
Diego era bombeiro civil. Sua morte prematura em acidente de moto levou a família a autorizar a retirada de todos os órgãos possíveis – desejo, aliás, que ele já havia manifestado. Coração, pulmões, rim, córneas... O JC mostrou, sábado, que amigos e familiares fizeram igual tatuagem para homenageá-lo – desenho tem letra D, asas, auréola e o número 5 que o benfeitor de 29 anos usava na camisa quando jogava bola. “Sempre quis ajudar as pessoas e já tinha me falado que, se algo acontecesse com ele, nós poderíamos doar tudo. Me sinto muito orgulhoso”, disse o pai, Ronaldo. O bombeiro civil e sua família provaram que existe vida após a morte. Várias. São as vidas que Diego, agora, ajudará a melhorar. E, feliz, a tudo verá do seu infinito.
O infinito. Fica bem longe da nossa pequeneza feita de caras, bocas, mentiras e poses.
O autor é editor executivo do JC