Ao lado do motorista, nem bêbado nem drogado. Essa carona pode estar com os dias contados. Ainda que o condutor esteja perfeitamente sóbrio, ele pode ser autuado. Ainda que o condutor seja uma alma caridosa disposta a socorrer o amigo carona que - separada ou conjuntamente - fumou, cheirou ou bebeu tudo, inclusive a bússola, essa carona solidária pode lhe custar muito caro. A infração é gravíssima, 7 pontos na CNH. É o que prevê o projeto de lei (PL 4380/2016) do deputado Flávio Augusto da Silva (PSB-SP).
Com um detalhe, o veículo será retido. Como assim? Vai largar o bêbado na calçada? Não pode! O coitado não para em cima das pernas! Isso é o que chamamos “bater em bêbado”. Covardia bater justamente em quem não tem a mínima condição de se defender. Por que o deputado não apresenta projeto proibindo a fabricação e o comércio de bebida alcoólica? Essa briga ele não compra. Pudera, todos sabemos o tamanho do adversário, o mundo inteiro lhe comeria o fígado. Então, resolve bater em bêbado e assemelhados. Desumano!
Lendo melhor o projeto, descobri ser possível evitar a multa e até levar o amigo embriagado, mas com uma condição: no banco de trás. Eis a justificativa: “Impedir que a condução do veículo seja afetada por quem, ao lado do motorista e em estado alterado, tome atitudes que representem perigo para a segurança do trânsito.” A ordem é clara: o condutor deve colocar o bêbado no banco de trás.
Como assim? Isso eu não faria nunca! Para mim e para qualquer mortal, controlar um bêbado ao lado já é missão extremamente difícil, imagine, então, estando ele livre e solto, bem atrás de mim. Não daria certo. Todos sabemos que a bebida, quando muito bebida, faz aflorar a melosa afetividade. Prevejo, então, a possibilidade de um abraço por trás - ou seria melhor dizer uma “gravata”? - sufocando-me o pescoço e terminando com um beijo nojento bem dentro da minha orelha... Isso seria um desastre ou, com certeza, o começo de um. No banco da frente, qualquer amigo meu alcoolizado pode contar comigo, no banco de trás jamais!
Sei que no banco da frente a situação também não é boa. Imagine o perigo de uma freada brusca motivada por jato de vômito no colo do condutor! Mas vindo de trás, escorrendo pelo pescoço e adjacências, não seria ainda pior? Não posso afirmar que o deputado estivesse etilicamente perturbado ao exigir o banco traseiro, mas que é loucura é. Que motorista de táxi gostaria de ter um bêbado pelas costas? Por trás, ninguém quer nada! Claro!
O que me chateia é que neste País quando uma medida começa a dar certo, logo vem outra e derruba tudo. É o caso do “rodízio do sacrifício”. Quer coisa mais sensata do que os amigos combinarem que, a cada semana, um deles fique sem beber para levar os outros para casa? Agora complicou. Como levar tantos bebuns juntos no banco traseiro? Loucura!
E o “rodízio em família”? Em um sábado, o marido bebe, no outro é a vez da mulher. Assim, o conjuge sóbrio garante a condução responsável do parceiro que, naquele momento, está bem irresponsável. Complicou novamente. Se a mulher bebeu, ela não pode voltar ao lado do marido, deve ir obrigatoriamente para o banco de trás. Além da humilhante separação, essa ideia de ter uma mulher por trás e bêbada... Não sei não...
Outro dia fui a um boteco tomar uma geladinha e percebi como estão bem informados os possíveis alvos do novo projeto. Na mesa do lado, um cara que tomava outras e umas desabafou: “Desgraça de Congresso, se esses caras não têm mais nada pra fazer, por que não entram em recesso?” O companheiro de copo foi mais longe: “Bêbado carona não pode, mas casal discutindo pode? Cachorrinho de madame na janelinha pode? Namorados se lambendo pode? A molecada se estapeando pode? Isso só pode ser coisa da bancada religiosa, mas a bebida, pelo que sei, é laica! A sorte nossa, cara, é que a grande maioria dos congressistas mama muito bem... O projeto será rejeitado.”
Agora, se o processo passar, teremos dois bafômetros. O carona do banco da frente escapa indo para o banco de trás. O condutor continua ferrado. Na bebedeira, não existe isonomia!
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras. curso_romag@uol.com.br