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?Estou tranquilo?

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Você já percebeu como político brasileiro gosta de exibir sorriso, leve ou rasgado, quando sabe que está sendo filmado ou fotografado? Poucas reações humanas indicam tranquilidade com a mesma força de convencimento do que um sorriso. Nossos mandatários sabem disso. Da mesma forma lançam mão, cada vez mais, de uma frase mágica que supostamente parece responder a qualquer pergunta sobre envolvimento nesta ou naquela investigação. “Estou tranquilo”. Talvez, nos últimos tempos, seja mesmo a mais frequente saída da boca sorridente dos políticos. “Estou tranquilo”.


Agora mesmo foi a frase adotada pelo ministro interino do Planejamento, Romero Jucá, quando questionado sobre a autorização, no Supremo Tribunal Federal, de quebra de seus sigilos bancário e fiscal de 1998 a 2002. “Estou tranquilo”. Suspeita: envolvimento de Jucá, na condição de senador, em desvios de verbas federais. A autorização foi concedida pelo ministro do STF, Marco Aurélio Mello, a pedido do procurador geral da República, Rodrigo Janot. Não é a única suspeita que paira sobre Jucá, mas ele está assim, tranquilo.


Já o presidente do Senado, Renan Calheiros, também poderá ter de responder sobre esquema de desvio de verbas relacionado à usina de Belo Monte, no Pará – e que igualmente tem Jucá citado na delação do ex-senador Delcídio do Amaral. Talvez Renan possa repetir o que disse em 2007 quando era pressionado a se afastar da presidência do Senado por ser acusado de receber dinheiro de um lobista para pagar pensão de uma filha fora do casamento. “Estou tranquilo”, falou Renan à época. Renan acabou se licenciando do cargo após mais de quatro meses de tensão. Mas... acabou reeleito presidente do Senado em 2015 e fica no comando da Casa, pela quarta vez, até este ano.


O caso de Renan, como se vê, mostra que o político brasileiro tem lá seus motivos para sempre se dizer “tranquilo”: quase sempre dá a volta por cima e retoma as rédeas do poder – pelo menos até a próxima acusação e investigação. “Estar tranquilo” não é exclusividade dos peemedebistas Renan e Jucá. “Estou tranquilo”, disse o senador tucano Aécio Neves ao ter contas de sua campanha presidencial questionadas por opositores no início de 2015.


Também a reeleita Dilma Rousseff adotaria a “célebre frase”. Como, por exemplo, no lançamento do Plano Safra 2016/2017 em 4 de maio. Sobre supostos crimes de responsabilidade que custaram seu afastamento, a petista mandou: “Estou tranquila”. E não podemos ignorar Eduardo Cunha. Que, em março, portanto antes de ter mandato suspenso pelo Supremo, em 5 de maio, disse... adivinhe? “Estou tranquilo”.


Intranquilos, no fim das contas, estão os brasileiros com suas tantas contas a pagar. Mas isso não parece tirar a calma dos serenos do poder. Que só é mesmo abalada quando alguns deles, ou próximos a eles, têm a condição de “tranquilo” trocada pela de “trancado”.    


O autor é editor executivo do JC

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