Tribuna do Leitor

Água - futuro e incertezas

Álvaro José de Brito ? Coordenador da Comdec
| Tempo de leitura: 4 min


Não existe nada que possa substituir a água. Aliás, nosso planeta deveria chamar-se Água, pois temos água na superfície, no subsolo, dentro de nós e na atmosfera... É um produto tão simples que nenhuma outra substância é encontrada nos três estados: líquido, sólido e gasoso, em nosso planeta. Usamos ela para tudo. Na nossa alimentação, para os animais, para os vegetais. Até tudo que foi construído pela humanidade usou, precisou ou consumiu água em algum momento.


Hoje, o consumo é exageradamente assustador. Há água desde a parede de nossas casas, no concreto dos edifícios, nos motores dos veículos. Mas como tratamos mal esse produto do qual depende nossa existência no planeta, desperdiçando e consumindo em excesso! Veja que o bife que comemos no almoço precisou de dez mil litros de água para ser  produzido. Devido à sua abundância, não nos damos conta que é um bem finito se não soubermos usar.


No verão, a natureza despeja todos os anos, trilhões de litros d’água sobre nossas cidades que ao atingir o solo acabam causando estragos, pois ocupamos os espaços que seriam dela, nas margens dos rios e córregos. Aí temos que criar uma vazão artificial com canais, piscinões e tubulações imensas. Tudo porque quando chega ao solo ela tem três caminhos, sendo que somente uma parte infiltra-se na terra, outra corre e acumula-se nas baixadas e a outra parte evapora-se para começar o ciclo novamente. Estamos interferindo de maneira drástica nesse arranjo que a natureza organizou através dos tempos, pois estamos impermeabilizando  nosso espaço.


Fico imaginando se um visitante intergaláctico aportasse por aqui. Poderia nos confundir com  insetos e nossas cidades seriam colmeias pois exaurimos os recursos naturais como se fôssemos gafanhotos, sem nos preocuparmos com as gerações futuras.


Em breve começaremos a beber os oceanos em larga escala. Pois hoje, quase 10% da população não tem acesso à água. Num futuro não muito distante, guerras surgirão, migrações já estão ocorrendo, inclusive no Nordeste onde se usássemos 5% da água que o São Francisco joga no mar, irrigaríamos o Nordeste inteiro e parte dessa água voltaria para os rios, através da evaporação e chuvas.


Imaginemos ainda 15 milhões de pessoas vivendo próximo às nascentes e ao curso alto dos rios Tietê, Piracicaba, Paraíba do Sul etc. sujando bilhões de litros de água através do esgoto. Não há gestão que aguente e a própria Agência Nacional de Água não se preocupa com isso.


No Brasil, priorizamos a reservação individual e com isso quem tem reserva suporta melhor a falta do líquido nos períodos críticos e com isso estamos criando mosquito que transmite a dengue, com milhares de caixas d’água na cidade, muitas delas sem tampa.


Criamos o mosquito em nossas casas, soltamos no meio ambiente e aí o governo coloca exércitos inteiros nas ruas caçando o mosquito alimentado com água fresquinha.

Destacamos ainda que existem estudos  que apontam que dentro de  alguns anos, o consumo de água e energia elétrica será através de créditos, como acontece hoje com os celulares, ou seja, você seria avisado quando seus créditos de água ou energia estariam acabando aí você contrataria o excedente. Pode parecer distante mas já existem estudos nesse sentido.


Numa visão apocalíptica, as cidades, longe de mananciais e sem água suficiente no subsolo, terão de buscá-la através de dutos ou construir grandes reservatórios, como acontece hoje com os derivados de petróleo. Hoje já vemos vários caminhões transportando água em nossas cidades. No futuro essa visão será ainda mais comum. Imaginem postos de abastecimento de água, semelhantes aos de combustíveis.


Existem hoje na cidade locais públicos para coleta de água como Praça da Bíblia, Vitória Régia, Quartel, Clayton etc. No passado tínhamos Esporte Clube Noroeste, Sanbra, Hípica, BAC e USC. Quem não se lembra das torneiras da Vila Industrial, na rua Salvador Filardi, que contribuíram para o desenvolvimento do bairro. Esses locais poderiam voltar a funcionar fornecendo água, novamente, para a população, que funcionaria como uma reserva nos momentos de crise.


Empresas privadas deveriam receber incentivo para fornecer água à população. Hoje, uma empresa localizada na avenida Castelo Branco fornece água de boa qualidade à população, inclusive de madrugada.


Se não fizermos algo pela nossa água, o futuro será incerto e com certeza modificará radicalmente nosso modo de vida. Mas é possível recomeçar. Com o controle de vazamentos e desperdício, uso consciente, racional e reuso, algumas sementes, um punhado de terra, uma garrafinha de água...  do DAE.


 

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