Regional

Animais doentes têm clínica pública

RITA DE CÁSSIA CORNÉLIO
| Tempo de leitura: 6 min

 Fotos: Alex Mita
Ambulatório Municipal de Animais (AMA) para atender cães e gatos é instalado em Agudos

Os animais, especialmente os cães e gatos, ganham cada vez mais espaço na vida das pessoas de todas as classes sociais. Para evitar que eles sejam abandonados doentes nas ruas das cidades em Agudos (13 quilômetros de Bauru) foi criado um ambulatório para atendimento voltado especialmente para as famílias de baixa renda. Aqueles com renda familiar inferior a três salários mínimos.

Todo tutor que precisar de atendimento para seu animal terá que apresentar documentação que comprove a renda. O serviço é pioneiro na região e, além de dar o primeiro atendimento, também visa diminuir a superpopulação canina e felina de rua, uma questão de saúde pública, na opinião da veterinária Priscila Santana Damante.

Pioneiro também é o Samuvet, um serviço de emergência que está em funcionamento há pouco tempo na cidade de Florianópolis, capital de Santa Catarina. Um veterinário resolveu reformar, com recursos do próprio bolso, uma viatura da prefeitura que estava sucateada para atender animais atropelados. Além dos cães e gatos, a viatura possui uma espécie de carreta para transportar até dois cavalos.

O que esses serviços significam para os voluntários que diariamente resgatam animais de rua doentes, machucados que necessitam de cuidados? Para a voluntária de Agudos Tânia Guerreiro, os serviços oferecidos pela prefeitura vão possibilitar que mais animais sejam atendidos, uma vez que ela e seu grupo tinham que fazer rifas e outras ações para arrecadar recursos.

“Podemos focar mais no trabalho de resgate e de atenção aos animais, uma vez que a consulta inicial e a estabilização do animal vão ser feitos pela prefeitura. Temos alguns animais fazendo quimioterapia porque têm tumores. Isso também será feito no AMA.”

A ONG S.O.S Patinhas de Reginópolis (70 quilômetros de Bauru) continua tendo que desenvolver várias ações a fim de arrecadar fundos para sustentar os mais de 50 cães e 60 gatos recolhidos das ruas. Os animais estão recolhidos na residência de duas voluntárias.


 

Veterinária Priscila Santana Damante diz que o foco da AMA é a saúde pública

AMA investe no controle da população canina e felina

Pouco mais de uma semana em funcionamento, o Ambulatório Municipal de Animais (AMA) de Agudos já atendeu mais de 40 animais. O trabalho é voltado à população de baixa renda, com rendimento de até três salários mínimos, que não possui recursos para pagar um veterinário para atender seus animais de estimação. Os animais abandonados, doentes e atropelados estão entre os atendidos também.

Uma das veterinárias do AMA faz questão de frisar que o município não tem a intenção de competir com os profissionais da cidade. “Queremos combater a superpopulação de animais abandonados nas ruas e oferecer para as famílias de baixa renda, cuidados com seu animal. Aqui fazemos atendimentos simples, consultas e não internamos. Nosso foco é a saúde pública,” explica Priscila Santana Damante. 

Segundo ela, os cães de rua que são atendidos no AMA chegam com muito carrapato, apático por não terem alimentação regulares e com algumas doenças. Alguns com suspeitas de leishmaniose. Nós fazemos o exame aqui no laboratório. A zoonose é nosso foco. Trabalhamos muito com a saúde pública.”

Os animais da população de baixa renda, em alguns casos chegam com doenças virais como cinomose e até intoxicados. “Nesse período atendemos um pouco de cada. Os atropelados que necessitam de cirurgia ou internação são encaminhados para uma clínica parceira. Não fazemos cirurgia, damos os primeiros socorros, estabilizamos o animal.”

Os animais abandonados chegam por meio de um tutor. “É ele quem vai fazer a ficha do animal e acompanhá-lo no atendimento. A pessoa que pega o animal na rua se torna responsável por ele. Depois que o animal está estabilizado, ele é encaminhado a uma clínica para a castração. A média de atendimento diário é de 10 animais. Sendo que a maioria são de cães.”

Ela explicou que, no trabalho com a zoonose, sentiu a necessidade de oferecer outro tipo de atendimento voltado à saúde pública e ao crescimento exagerado da população de animais nas ruas. “Entendemos que Agudos precisava de um local onde pudesse dar mais suporte a esses animais.”


 

Tânia Guerreiro é voluntária da ONG que resgata animais

Tânia Guerreiro desenvolve projeto de proteção a animais em Agudos

Tânia Guerreiro é uma dessas mulheres que não fica só no discurso de defesa dos animais. Vai para as ruas de Agudos e recolhe aqueles que foram abandonados e necessitam de cuidados. “Nós, eu e mais sete amigas, temos um projeto de proteção animal que não está formalizado como ONG. Resgatamos o cão da rua que precisa de cuidados, socorro no caso dos atropelados. As cachorras prenhas que vão dar cria. Recolhemos, tratamos e castramos os cães antes de disponibilizarmos para adoção. A adoção é muito importante para nós. Só assim podemos continuar nosso trabalho.”

O abandono de animais velhos e doentes é uma constante, fatos tristes que ocorrem em todo o Brasil. “As pessoas não têm consciência das suas responsabilidades sobre o animal dela. Os filhotes são facilmente adotados. Porém, um deles que foi adotado em dezembro último, foi devolvido. O motivo? Mordeu o chinelo do filho da adotante. Ela me perguntou se eu aceitaria o filhote de volta? Aceitei. Do contrário, tenho certeza que seria colocado na rua.”


Filhote

A dona de casa Toshiko Uramoto, 65 anos, moradora de Agudos usou os serviços do AMA pela primeira vez. Ela adotou uma cachorro na feira de adoção e na última semana o animal começou a ter diarreia. “Ela está com a traseira inchada. Fuçou no lixo e está com diarreia.”

A veterinária que atendeu ao filhote diagnosticou que a cachorra necessita de cirurgia e foi encaminhada para a clínica parceira. “Ele tem uma hérnia no intestino que rompeu a musculatura. Vamos estabilizá-la e encaminhar o caso para uma clínica particular.”


Dedicação

A dedicação com que cada voluntária cuida dos animais resgatados é algo que salta aos olhos. Tânia Guerreiro, por exemplo, tem dois empregos e dois filhos para cuidar. Mesmo assim arruma tempo para amar os animais.

“Eu trabalho o dia e a noite. Levanto às 5h30 para tratar e limpar. Volto na hora do almoço e vou para outro emprego em Bauru de onde saio às 22h. É corrido. Tem que lavar quintal, dar os medicamentos, transportar até a clínica para fazer a quimioterapia. Isso tudo tenho que encaixar nos meus horários. Faço isso desde 2012. Tenho dois filhos que já são rapazes. Eles auxiliam a cuidar, tratar, trocar água e dar medicamentos.”

Para custear os gastos com a ração e os medicamentos, as voluntárias fazem rifas. “Nós pedimos doações e fazemos rifas. Temos muitas doações de ração. Já os medicamentos compramos, em sua maioria. As pessoas ajudam. Estou com três fazendo tratamento de quimioterapia. Tenho que levá-los até o ambulatório.”

Os cães resgatados pelo voluntariado ficam de seis a oito meses em lar provisório. “Quando eles vão embora é difícil, eu sofro”, confessa. “ Eu e as demais voluntárias acompanhamos as adoções por um tempo. Vamos visitar a casa e saber se eles estão bem cuidados. Quando vejo que o cão está bem tratado e recebendo amor, eu me tranquilizo.”

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