Tenho uma moto pequena parada em casa. Nunca pilotei. Nem carta tenho para isso. Não pretendo ter. Quando adolescente rodei muito de mobilete. Mobilete! Meio de transporte para o trabalho. Minha experiência como motociclista começou e terminou ali.
Entre tantas vítimas em acidentes com motos agora está o jornalista Marco Antonio Benatti. Tinha 51 anos e, segundo o jornal Correio Popular, de Campinas, morreu na tarde de quinta-feira após ter sua moto fechada por uma caminhonete na Rodovia dos Agricultores, em Valinhos. Benatti estaria abaixo do limite de velocidade e o motorista causador da colisão fugiu sem prestar socorro. Choram esposa, duas filhas de 11 e 17 anos e, ao que parece, uma legião de amigos.
Acidentes ocorrem a todo momento, mas moto é mesmo um capítulo à parte. Na minha trajetória de garupa também já passei por alguns apuros, mas breves e sem danos. Há duas semanas meu sobrinho de 19 anos bateu a moto, saiu ileso, mas podia não ter sido simples assim.
Considero admiráveis esses grupos de motociclistas. Vejo ali muita amizade, paixão por liberdade, sincero apego ao veículo, felicidade que não se esgota na primeira partida. Mas algo parece não mudar: a moto é a parte frágil do trânsito. E modelos alternativos, por enquanto, ainda não passam de geringonças sem mercado.
Num mundo acelerado em todos os níveis de convivência, não é difícil entender o motivo de tamanho temor pelo pior. Na sexta à tarde um camarada rasgou a Nações Unidas em moto barulhenta e chegou a ficar numa roda só em pleno horário de almoço, sumindo no horizonte. Pode isso?
Meu desejo é que a equação “moto X acidentes” seja, um dia, resolvida. Não é possível encarar com normalidade tantas tragédias diárias, especialmente aquelas em que a parte frágil estava de inocente, na mão certa, na velocidade adequada, e mesmo assim não consegue escapar disso que choca e coloca uma interrogação no coração das pessoas: a interrupção da vida fora do combinado.
Que tal se a nossa grande utopia fosse um trânsito muito mais seguro? É a partir do irreal desejado que muitas boas coisas se materializam. A sociedade precisa sonhar esse sonho. Necessita vislumbrar uma forma de frear tanta devastação familiar.
A vida não merece a tétrica contabilidade que transforma gente em fúnebre estatística. Nosso horror cotidiano precisa ser contido. Alguém tem uma pista segura sobre como se faz isso?
O autor é editor executivo do JC