Tribuna do Leitor

O machismo no século XXI

Rosa Marcia de Jesus Figueiredo - assistente social
| Tempo de leitura: 3 min

Inacreditável esse tipo de texto e, mais inacreditável, escrito por um jornalista. Num momento em que estamos lamentando uma jovem ter sido estuprada por 30 homens, este tipo de postura só reafirma a prática machista que vivenciamos nesta sociedade há anos e parece não nos livraremos dela tão cedo. Neste inacreditável texto o autor reafirma a retrógrada máxima machista quando escreve: “Está na hora de acabar com a escravidão dos machos e pôr fim à boa vida das fêmeas”.

Confesso que tive medo de me pronunciar, sou apenas uma mulher de 54 anos, assistente social, esposa, mãe do Daniel e do Vitor e avó do Davi. Não tenho certamente todo o nível de conhecimento do sr. Zarcillo, mas simplesmente não consigo ficar inerte, portanto, aí vai minha opinião.

Fiquei perplexa quando li o primeiro parágrafo, li o segundo e pensei: deve ser algum tipo de pegadinha, no final do texto com certeza  virá uma frase dizendo: há, há, te peguei, heim! Mas não, me senti ofendida do início ao fim, sou mulher, esposa, mãe, profissional, cidadã e como eu milhares de mulheres que acordam muito cedo, levam os filhos pra creche, trabalham, às vezes em jornada dupla, falo da remunerada porque o trabalho doméstico diário não é remunerado e, quando muito, conta a ajuda do homem com quem vivem. No meu caso, tenho um companheiro maravilhoso (há 34 anos), que divide comigo o trabalho de cuidar da casa, dos filhos e que me ama muito. Uma grande parcela das mulheres sequer conta com a presença masculina, pai de seus filhos e nem mesmo com o mínimo de uma pensão alimentícia, portanto, cuidam sozinhas dos filhos. Algumas, ou melhor, a maioria delas, ainda cuidam de seus companheiros, lavam, passam, cozinham, limpam a casa, se cuidam, pois precisam estar belas para satisfazer a cobrança da sociedade.

Considero que o atual governo errou, sim! Não inseriu mulheres nos cargos de alto escalão, por exemplo, com ministérios (é só olhar a foto de posse), perdeu muito, pois somos infinitamente mais sábias, cuidadosas, sensíveis, práticas, conciliadoras, inteligentes, tolerantes, companheiras, amigas, verdadeiras, justas, competentes, engajadas, batalhadoras, não desistimos nunca, mesmo frente a toda injustiça, preconceito, intolerância, discriminação e dificuldades que nos são impostas a cada minuto do dia. Precisamos o tempo todo provar que somos melhores, mas dizemos que vocês (homens) é que são, e, melhor, vocês acreditam! Precisam de nós exatamente para tudo, nascer, crescer, viver, morrer e por falar em morrer, como o sr. disse que vocês morrem antes de nós,  morrem porque não se cuidam porque têm medo de injeção, dentista, exames (de todos os tipos), não choram, é verdade, mas são eternamente os “bebezinhos da mamãe”. Nós, mulheres, os ajudamos a crescer, serem homens, assumirem responsabilidades, o que seria de vocês sem nós?! Não sobreviveriam sem uma mulher.

Mas nós entendemos, damos um desconto (como sempre) e continuamos nossa árdua tarefa de amamentá-los, amá-los, protegê-los, ensiná-los, afinal, Deus nos deu esta tarefa porque sabia que nós daríamos conta. Muitas de nós certamente trocam pneus, consertam carros, constroem casas, pilotam aviões, dirigem ônibus, táxi, são médicas, dentistas, gerente de bancos, empresárias, arquitetas,  etc,  e ainda mantêm a delicadeza e a generosidade. Somos sim frágeis pela nossa compleição física, mas só por ela e os de mau caráter se aproveitam dessa fraqueza quando nos agridem, nos subjugam, nos ofendem, humilham, usam da força pra impor sua vontade, não sabem dialogar, não sabem amar, não sabem ouvir. Quero deixar claro que me refiro aos de mau caráter, machistas que ainda imperam em pleno século XXI. Existem os que são bons pais, maridos, amigos, companheiros,  que tratam as mulheres com respeito, igualdade e amor, estes deviam se pronunciar quando textos deste tipo são escritos, aguardemos, quem sabe... Desculpem meu texto simplista, não sou jornalista!

“Por um mundo onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”. Rosa Luxemburgo.

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