Tribuna do Leitor

Limpeza de bueiros

Prof.ª dra. Maria de Fátima Neves Sandrin
| Tempo de leitura: 4 min

Após ler a reportagem “Obras não dá conta de limpar todas as bocas de lobo do município”, publicada em 22 de junho no Jornal da Cidade, vejo com preocupação a visão da administração da cidade relativa aos problemas sobre as inundações tão frequentes em Bauru.


Logo de início foram citados dois fatores que contribuem para potencializar o risco de inundações: falta de conscientização da população e deficiência do poder público por falta de funcionários para executarem a limpeza das bocas de lobo. Assim como em outras cidades brasileiras, por conta do descarte inadequado do lixo na via pública, sacos de lixo, garrafas pet e até sofás vão parar nas galerias. Em síntese, a situação dá conta que os 7 mil bueiros da zona urbana de Bauru eram desobstruídos uma vez a cada dois anos e meio até o ano passado e há expectativa de serem limpos 5 mil bueiros em 2016  com a contratação de reeducandos para tal serviço. Ao que entendi, a Secretaria de Obras defende terceirização desse trabalho em determinados períodos com utilização de máquinas de limpeza apropriadas. Essa proposta foi apresentada pela Associação de Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag).


Em vista dessas ponderações, penso que podemos e devemos aprofundar um pouco mais esse problema da gestão da cidade, tendo em vista a importância de se reduzir o impacto socioeconômico das enchentes. O problema não é novo e sua solução parece ser pensada a curto prazo - no máximo até o ano próximo, já com novo prefeito. Com a contratação dos reeducandos se resolveria o problema de 71,4% dos bueiros no presente ano. O resto ficaria obstruído mesmo. De cara deduzo que parece não haver um plano a longo prazo para a prevenção das enchentes. Tenho lido sobre as tratativas para a construção de piscinas, entre outras medidas, mas nada foi decidido até o momento. Tudo anda muito devagar, sem prazos. E as enchentes se sucedem todos os anos.


O que significa uma cidade ter um plano de prevenção de enchentes com ações a curto e longo prazo? É possível evitar-se o prejuízo ao patrimônio público e privado, além de perdas de vidas com um planejamento adequado? Pude perceber o que significa isso ao viajar a Ann Arbor, Estado de Michigan (EUA), em 2014.  Algumas ações me chamaram muito a atenção pela simplicidade e ou pela engenhosidade das estruturas físicas. Na cidade de Ann Arbor, os bueiros são padronizados e neles é colocada uma tela que encaixa e se prende perfeitamente nos mesmos, de tal forma que a limpeza se dá com menos esforço possível. Fico pensando nas inúmeras vantagens que esse cuidado pode gerar, incluindo maior facilidade e redução do tempo de limpeza. Esses requisitos de padronização no design do bueiro e da tela protetora constituem uma de muitas medidas da prevenção de enchentes, incluindo o trabalho conjunto de equipe multidisciplinar para reavaliação de equipamentos e construções em áreas de risco.


Por outro lado, nota-se facilmente a educação da população porque ao longo de quilômetros de ruas e avenidas raramente se vê algum lixo jogado na rua. Ou seja, é o resultado da velha máxima “Onde não há quem suje, não é preciso ter quem limpe”. Se não se investir na questão da educação, do viver coletivamente, do exercício da cidadania, nunca teremos funcionários suficientes para a limpeza. Cada vez vamos precisar de mais. Nessa hora lembro-me de uma amiga que mora no Japão e que me disse que os próprios cidadãos se reúnem para limpar as ruas da cidade e beira do rio em determinadas datas, evitando-se gastos com contratação de funcionários para limpeza.  Realmente, é outro mundo! Mas no nosso caso, fica claro que educação é parte indiscutível para se viver bem coletivamente. Tem que fazer parte do plano.


Outra medida que me chamou atenção e que, penso, faz enorme diferença, é a padronização dos coletores de lixo, isto é, das latas de lixo. O caminhão chega e com duas garras, pega a lixeira e vira no caminhão. Se o indivíduo tem uma lixeira fora do padrão, recebe uma cartinha e toma ciência do valor da multa caso não resolva em um prazo x.


Tem educação, mas também tem penalidade em caso de transgressão à norma. Nessa cidade e em algumas outras, há contêineres para coleta de lixo reciclável e lixo orgânico também. Assim, não se coloca saco plástico de lixo na calçada. Com isso, mesmo com enxurrada, não haveria sacos sendo levados pela água, levando ao entupimento das galerias com as consequências desastrosas que tão bem conhecemos.  Se o indivíduo não tiver coleta na porta, poderia ter na esquina, onde colocaria seu saco de lixo no contêiner.


Bem, mas porque estou estressando com essas coisas que estão tão distantes de nossa realidade? Por que penso que podemos elaborar um plano de prevenção com uma equipe especializada multidisciplinar que inclua a melhoria da engenharia desses bueiros, nos quais a colocação das telas poderia ser uma saída que reduziria gastos com mão de obra. Teríamos que encontrar soluções para o nosso problema bauruense, mas nada impede que nos inspiremos em cidades brasileiras que encontraram soluções bastante práticas para problemas similares. O requisito mais importante: vontade de resolver de forma mais efetiva.

Comentários

Comentários