Em tempos de tamanha polarização no debate político nacional, prevalece a paixão e a intransigência, um maniqueísmo superficial, onde grande parte da população tem optado por escolher um dos “lados”, adotando assim um pacote de ideias pronto e fechado, o que impossibilita a análise crítica, onde a imparcialidade é fundamental.
As virtudes são enaltecidas e os malfeitos ignorados, quando, no fundo, sabemos bem que nessa história não há mocinhos, apenas vilões. A retórica do golpe difundida pelo PT, é estratégia de propaganda espúria, uma tentativa de manipulação da opinião pública que tem guarida na falta de conhecimento técnico, na paixão ou na má-fé. Bordões como “não vai ter golpe” e “defesa da democracia” são frases de efeito que refletem uma farsa.
A palavra golpe, de interpretação ampla e significado impreciso, começou como esdrúxula comparação a 1964 e foi se travestindo de outros significados mais brandos conforme o avanço do processo e a chancela do STF. O afastamento seguiu o rito constitucional, e não há dúvidas da presença de vários crimes de responsabilidade.
Ocorre que a peça inicial que embasa o pedido de impeachment, dentre tantos motivos possíveis, fundamenta-se justamente nos mais frágeis e questionáveis, e isso, por ter sido motivada, além de precipitadamente, também por ódio, perseguição e outros objetivos ocultos. Um erro histórico, pois o afastamento só foi possível pela força das manifestações populares, que não protestou contra pedalas ou decretos, mas contra a corrupção. Seria um fundamento para a posterioridade, e que não daria margem a tanto vitimismo, porém, é sabido que poderia respingar no restante de um congresso desonesto e comprometido com as mesmas práticas abomináveis.
No Brasil, nada é como deveria ser. Quanto à “defesa da democracia”, sempre é bom lembrar ser ela pertencente ao povo, e não propriedade desse ou daquele partido, e que os deputados que afastaram a Presidente (por piores que sejam) foram eleitos tão democraticamente quanto ela, alçando ao poder, ora temporário, seu companheiro de chapa. Embora tenhamos um congresso nacional vergonhoso e com tendências golpistas, o governo do PT fez com que o golpe não fosse necessário.
Por outro lado, os oposicionistas parecem conformados com um novo governo que era parte fundamental do antigo, sócio nos malfeitos, simplesmente pelo fato de o PT não estar no poder, o que deixa a insatisfação política com ares de pirraça, e joga por terra o discurso patriótico que embalou as manifestações dos camisas-amarelas, tão importantes na derrocada do governo petista. Se o governo do PMDB é tão culpado quanto o do PT nas piores acusações, por que não há contra Michel “o Conspirador” a mesma rejeição que pesa contra Dilma “a Mentecapta”?
É estarrecedor constatar de um lado uma esquerda que ignora a corrupção no governo petista, e a responsabilidade pelo voto em seu vice, e do outro, uma direita que se conforma com a substituição de um governo corrupto por seus sócios de outrora, quando ambas são vítimas.
Esse antagonismo cínico de indignação seletiva, sustentado por uma agressividade passional, faz com que travemos entre nós, do povo, uma batalha que deveria ser contra toda a classe política corrupta que corrói a res pública há séculos.
O Brasil perde assim, oportunidade impar de mobilização nacional e a criação de uma terceira via, capaz de pleitear uma reforma política profunda, leis anticorrupção de iniciativa popular e novas eleições diretas já, que dê ao novo governo maior legitimidade.
É fato que padecemos, no momento, de gravíssima falta de opções, mas não haverá nova política com a manutenção dos velhos métodos. Embora por caminhos diferentes, os cidadãos brasileiros tem muitos objetivos em comum. Uni-vos!