| Aceituno Jr. |
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| Mauricéia: “Trata-se mesmo de recuperação dos sentidos e, assim, proporciona um nível de consciência diferenciado” |
Você não consegue se desligar de preocupações, sua mente é “tagarela”, vive sob picos ou incentivo de estresse? E ainda: tem o estado psicológico sobrecarregado e, em função de todos esses “ingredientes de vida”, sofre com insônia, ansiedade, dores de cabeça? Talvez você precise conhecer técnicas meditativas que “desligam” e desaceleram seu “piloto automático” mental chamadas mindfulness.
A aplicação funciona como um guarda-chuva na atuação com foco sobre o estado psíquico, mental, cuja “tradução” prática é a busca da atenção plena, viver com profundidade, intensidade, o que acontece no momento.
É o que conta a psicóloga clínica com mestrado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora de mindfulness para a saúde do trabalhador, Mariana Fernandes.
“É um termo amplo, que corresponde a um conjunto de técnicas meditativas, mas também a um estado psicológico e mental ou um traço psicológico”, diz. Ela conta, ainda, que a origem está nas tradições milenares budistas.
“O termo mindfulness é uma tradução que, para nós, vem sendo atribuída como a atenção plena. É estado mental que todos podemos desenvolver. Mas como estamos mergulhados no piloto automático de viver, essa nossa capacidade fica negligenciada ou sob constante bloqueio”, complementa.
Visão mais clara
A psicóloga clínica especialista em Terapia Cognitivo-comportamental (TCC) Mauricéia Quinhoneiro define a técnica como a meditação fundamentada na atenção plena cuja essência é acordar para o que está acontecendo no mundo e dentro de si mesmo, momento a momento.
“Trata-se de uma recuperação dos sentidos proporcionando um nível de consciência diferenciada e que surge de forma espontânea com a prática. Orientadas pelas intenções de calma, curiosidade e livre de julgamentos, as técnicas de mindfulness tendem a proporcionar uma grande sensação de perspectiva ajudando a pessoa a reconhecer o que é importante ou não”, aborda. Embora ligada a uma tradição milenar, pela meditação, a aplicação da mindfulness só foi reconhecida pela comunidade científica a partir de experimentos realizados por centros de pesquisas.
“No longo prazo, a técnica de mindfulness estimula as pessoas a tratar a si mesmas e aos outros com compaixão. As pesquisas mostraram que os meditadores regulares são mais felizes e mais satisfeitos do que a média das pessoas”, comenta.
Benefícios
De acordo com os estudos, a ansiedade, depressão e a irritabilidade diminuem com sessões regulares de meditação. Conforme Quinhoneiro, a memória também melhora, as reações ficam mais rápidas e há avanços no desempenho e vigor físico e mental.
“Muitos estudos também associam a meditação com a redução do estresse crônico e hipertensão. A técnica mostrou-se também eficaz como coadjuvante no tratamento da dor crônica, compulsão alimentar e dependência de álcool e de drogas”, completa.
Respirando
De outro lado, pesquisas também indicaram que a mindfulness fortalece o sistema imunológico, ajudando até mesmo a combater inúmeras doenças. “Em termos simples, objetivos, mindfulness consiste em concentrar toda a atenção na respiração. A ideia é observar os pensamentos que inevitavelmente vão surgir na mente e não lutar contra eles. Desta forma, percebe-se que os pensamentos vêm e vão por si próprios. Observa-se então que pensamentos e sensações - bons ou ruins - são transitórios e que é possível ter a opção de agir com base neles ou não”, acrescenta.
Técnica leva ao estado de ‘atenção plena’ em contraposição à ansiedade e ‘mente tagarela’
| Divulgação |
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| Mariana: “Mindfulness atua contra o funcionamento da mente pelo chamado ‘piloto automático’ e é capaz de gerar equilíbrio” |
Para a psicóloga e mestranda Mariana Fernandes, todas as pessoas podem desenvolver o potencial da atenção plena. “Mas, como vivemos sob a premissa do ‘piloto automático’, nossa capacidade de atingir esse estado mental fica prejudicada. E mindfulness treina essa capacidade para que possamos ficar atentos ao momento presente”, diz.
Quem está vivendo as turbulências do dia a dia fica mais distante da atenção plena. “Então o bombardeio de informações, a ansiedade com que lidamos com as obrigações, as ferramentas tecnológicas utilizadas de forma inadequada, são elementos concorrentes da atenção plena. Com o mindfulness nós podemos obter a auto regulação da atenção. Ou seja, não estar tão relacionado nem ao futuro e nem ao passado. É estar relacionado ao momento presente, em estado de equilíbrio com nossa atenção”, reflete.
Domando a mente
Trazida ao Brasil em 1979 pelo professor da Universidade de Massachussets, Jon Kabat-zinn, a técnica de mindfulness busca o alcance do equilíbrio e isso ajuda a combater estresse e ansiedade.
“Nossa ‘mente tagarela’, de pensamento disparado a todo momento, pode ter seu funcionamento regulado. Mas mindfulness não é deixar a mente em branco. É permitir que os pensamentos ocorram, mas com você se relacionando com eles de forma equilibrada”, opina. Mindfulness atua também na abertura em relação às experiências imediatas, as que acontecem no momento, e a aceitação. As pessoas vão treinar a fazer uma leitura das experiências momento a momento sem filtros, sem julgamento.
As práticas formais atuam na respiração, escaneamento corporal (observação natural de cada parte do corpo) e compaixão. “É uma observação de cada parte do corpo sem julgamento para obter consciência corporal. No sentido de não julgar e aplicar os conceitos de se colocar no lugar do outro, é uma técnica complementar à terapia cognitivo-comportamental, é a terceira onda das linhas cognitivas”, aborda.
As técnicas são usadas na prevenção, recaída e uso de drogas, redução do estresse e para desenvolvimento pessoal em áreas corporativas. “É uma técnica que traz enormes benefícios para diversas aplicações, mas para pessoas com doenças em condições clínicas extremas, como depressão crônica, dores em fase aguda, nós orientamos ao atendimento profissional anterior, para que a aplicação não desencadeie nenhum prejuízo se ela não tiver outros cuidados”, adverte.
O programa é aplicado em oito semanas também “para o desenvolvimento potencial e de criatividade individual, para ajudar na perda de peso, na melhora do sistema cardiovascular, na memória e na melhora do sono”, elenca Fernandes.
“Aprende a não julgar”
Driele Qujinhoneiro concluiu em maio passado o programa de oito semanas de mindfulness. A nutricionista conta que pretende utilizar as práticas meditativas em sua profissão, além do mestrado na área. “Tenho a intenção de aplicar a mindfulness no doutorado. Quero nesta etapa vivenciar o aprendizado e caminhar na pesquisa a respeito. Para mim é um estado mental onde a gente aprende a não julgar o fato, a experiência. A experiência disso é verificar que é possível se libertar do condicionamento automático que a gente aciona diante das questões no momento”. Sobrinha de Mauricéiam, ela cita que “a resposta passa a ser diferente” e , com o treinamento, aprendeu a não responder automaticamente aos fatos”. Ou seja: “a ter controle.
‘Descanso mental’
No programa, os participantes realizam as técnicas meditativas, as vivenciam e compartiham com os demais. “Eu achava que seria incapaz de controlar o pensamento. Sempre sofri com esse negócio de ‘mente tagarela’. O turbilhão de pensamentos deixa mesmo a pessoa exausta. Para mim, a mindfulness é como escovar os dentes, realizar exercício diário de foco e de como descansar a mente. São meditações de 10, 20 minutos”, resume Driele.

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