Tribuna do Leitor

"Aguardar vaga"

Hilário Nunes da Silva
| Tempo de leitura: 2 min

Sempre alertei meus filhos em relação às coisas que podem acontecer, ou seja, acidentes de trânsito, assaltos, estupros etc. À primeira vista, parece mórbido, mas tem dois objetivos: o primeiro, orientá-los a ter o mínimo de cuidado em relação à segurança e, segundo, perceber, compreender que esses acontecimentos que normalmente “só acontecem com os outros” podem acontecer com a gente, pois para as outras pessoas “os outros somos nós”.

Então, por que o título “esperando vaga?”, porque você verá que em algumas situações mesmo o seu máximo não é suficiente, não lhe ajuda e nem aos que você ama. Há mais de um ano participamos do “Programa Família Acolhedora”, que consiste em receber em casa, encaminhados pela Justiça, por um período determinado, crianças, adolescentes ou grupos de irmãos em situação de risco pessoal e social, dando-lhes acolhida, amparo, aceitação, amor e a possibilidade de convivência familiar e comunitária até que sejam adotados ou encaminhados a alguma Instituição. Nesse sentido acolhemos o recém-nascido e prematuro “José”, que como alguns outros veio com problemas de saúde, em decorrência dos abusos da senhora que o gerou.

Levamos o José no Pronto-Atendimento Infantil, onde fomos muito bem atendidos pelo pessoal da enfermagem e médica, que diante do resultado dos exames e RX, informou da necessidade de interná-lo, mas que não havia vaga no hospital, que deveria então “aguardar vaga”. Esperamos um dia e meio por essa vaga, em um local com várias crianças com diferentes problemas, em condições que poderiam ser melhores.

O objetivo não é criticar quem quer que seja, pois os profissionais que trabalham ali fazem o que podem diante da precariedade das condições. É que olhando para a criança, com dificuldade de respirar, peito carregado, tive a exata dimensão de que, apesar de toda dedicação, todo empenho, nosso máximo não foi suficiente, ou pouco resolveu, e nesse caso “os outros” fomos nós.

Mas encaro tudo na vida como uma lição, uma evolução, quando e se isso acontecer novamente estarei melhor preparado... com mais experiência.

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