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Crise mostra onde há desperdícios

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Malavolta Jr.
Cláudia Clérigo transfere para os filhos, há tempos, as sugestões da mãe em relação à base da educação financeira

Preços em alta e salários estagnados pedem esforço das famílias para que as contas não gerem dívidas, apesar das dificuldades. Mas, mesmo no meio do turbilhão negativo da economia, famílias inteiras conseguem aproveitar o cenário para reciclar o comportamento de consumo e, sobretudo, verificar que antigos vícios somados a exageros na forma de viver geravam gastos desnecessários.

É a crise “ensinando” onde estão os desperdícios de um lado, e como a mudança em hábitos corriqueiros pode ajudar no equilíbrio financeiro doméstico, além de servir de estímulo à aproximação entre os familiares, de outro. E tem muita gente fazendo isso. 

A assistente social Cláudia Clérigo transfere para os filhos, há tempos, as sugestões da mãe em relação à base da educação financeira. Mas, embutida na preocupação em transferir informação sobre o “valor do dinheiro” para os filhos, ela tem um conceito que merece ser levado em conta, sobretudo nesta fase de retração econômica.

“A crise me ensinou que eu gastava com coisas que eu não precisava e com coisas quem eu nem usava. A crise me mostrou onde estavam os desperdícios, que antes, por uma série de fatores, em casa a gente não levava em conta”, comenta.

Para Cláudia, as pessoas tendem a ficar deprimidas, irritadas, inseguras diante da crise e isso atrapalha o processo no caminho do aprendizado. “É evidente que quem perdeu emprego está no sufoco e pode nem ter equilíbrio emocional para enxergar onde cortar. Mas o fato é que infelizmente as pessoas só caem na real pela dor. Entender que se a coisa está mais difícil é preciso ter ainda mais cuidado em como gastar e consumir é o ponto de partida”, estimula.   

A servidora municipal sugere, de pronto, que educação financeira faça parte da “rotina” dos pais em casa e, também, do currículo escolar. “Os filhos só vão aprender quanto custa e como usar aparelhos, como lidar com o conforto ou seus desejos, se aprenderem quanto custa. E isso depende da ação dos pais. A escola pode ajudar também nesse papel”, defende. 

Outra contribuição valiosa vinda da casa de Clérigo. “Quanto mais houver o envolvimento da família menos difícil será o processo de cortar gastos ou realizar ajustes. Isso do uso do telefone celular à forma como se usa o esguicho para lavar o quintal. Dividir as informações com todos e insistir para que todos participem das ações é importantíssimo. E isso nos aproximou, ao contrário de gerar rusgas”, reforça a servidora. 

É preciso aprender a cortar dentro de casa

No caso de Cláudia Clérigo, moradora no Nobuji Nagasawa, as ações para economizar tiveram uma premissa que “ganhou” os filhos de 18 e 25 anos. “Eu os chamei e disse que para conseguir continuar guardando um valor mensal para a gente continuar fazendo viagem juntos, que gostamos muito, teriamos de cortar exageros e desperdício. E tem funcionado”, sugere.

Cláudia Clérigo conta que a família pagava pouco mais de R$ 300,00 para o uso de telefone celular, sendo ela e dois filhos. Eles conversaram e a sugestão foi cortar a Internet vinculada ao plano de TV a cabo ou abrir mão da assinatura dos canais. 

“A saída que encontramos, depois de pesquisar, foi negociar uma conta em grupo com uma operadora, com Internet nos telefones. A TV a cabo deu lugar à assinatura de canal de filmes que pode ser compartilhado por três pessoas. A conta, só com os celulares, caiu para R$ 200,00 e cada um tem sua Internet em seu aparelho”, informa.

A casa da assistente social tem aparelhos de ar condicionado em todos os cômodos. “O Vinicius (filho) usava o ano todo e o tempo todo. Conversei com ele, que passou a abrir a janela. Trocamos também o capacitor do ventilador de teto, o que o tornou mais eficiente. Ele agora usa o ar só em dias de extremo calor.”

Outro ajuste no hábito foi decorrente do uso de ar condicionado com outros aparelhos. “Fizemos uma meta de redução de consumo. Se a meta fosse estourada, perderiam a internet. E tem funcionado bem e sem muito sacrifício porque, na verdade, cortamos desperdício, não necessidades essenciais.”

“A lava louça passou a ser utilizada em situações de acúmulo real de peças na cozinha, a máquina de lavar roupas eu pesquisei que ela tem um ciclo normal para uso rápido, de 30 minutos. Troquei produtos de limpeza de marca por outros mais baratos e nosso cachorro agora toma banho no pet só quando vai tosar. Pesquisei ração boa em troca da mais cara e no esguicho para lavar o quintal coloquei um dispositivo que interrompe o consumo quando preciso usar a vassoura”, elenca.

Para Cláudia Clérigo, em todas as ações que passou a implementar em casa estava implícita a ideia de verificar se havia desperdício ou exagero. A fatura com energia elétrica caiu de R$ 450,00 para R$ 210,00 em sua residência. “Na hora das compras do mercado a tabela de preços está à mão e quando chego em casa procuro conversar com eles sobre quanto custa o que. A ideia é não desperdiçar”, finaliza.

Cláudia Clérigo informou uma série de outras ações. A ideia, então, é que cada família faça a sua lista, faça seus acordos em família, com a participação de todos, sem culpa e sem atrito. É usar a crise como inimiga no sentido econômico, mas como oportunidade para aproximar os que se gostam.

"Vamos trocar serviços"

Ganha adeptos no Facebook a ideia de compartilhar serviços, com comprometimento e regras de conduta entre os participantes. O grupo, criado em várias cidades, tem o nome de “Vamos trocar serviços Bauru”. Cláudia Clérigo descobriu o grupo há um mês e já fez “negócios”. “Faço peeling no rosto todo ano, mas com esse aperto todo eu não ia fazer dessa vez. Aí, entrei no grupo e vi que uma participante que trabalha com estética precisava de itens de decoração para festa de 15 anos. E eu tinha guardado. Troquei com ela o peeling pelos materiais”, diz.

E tem outro “aprendizado” nessa história. “Eu tinha comprado os itens de decoração e nem usei. Estava na caixa, um sinal de que já tinha sido evitável. Troquei também uma centrífuga por pirulitos de chocolate e carrinho de bebê pelo aluguel de cama elástica e piscina de bolinha para uma festa de 1 ano de um sobrinho”, acrescenta. Segundo as regras do grupo, quem efetuou a troca de serviços tem de publicar as fotos informando o que foi realizado e informar se o acordo foi cumprido ou não. Ou seja, quem der mancada vai ficar identificado na página, o que ajuda a formar um cadastro com boas referências de pessoas e serviços.

Para alguns participantes, consultados via Facebook, tem prestador de serviço “sem noção”, abusando mesmo em tempos de crise. “Tem gente que está com preços absurdos para serviços comuns, como de jardinagem, pedreiro, eletricista. E ainda enganam muitos por desconhecimento de quem contrata. A ideia da troca de serviços em grupo ajuda a combater maus profissionais e ajuda quem está em dificuldades em realizar ou ter o que precisa sem necessariamente precisar gastar”, completa.

Gestor sugere consciência e comprometimento

Ao ouvir todas as medidas adotadas pela família de Cláudia Clérigo, o especialista em gestão de crise empresarial ou pessoal Fernando Benjamin sintetizou a eficácia das atitudes em dois pontos centrais: consciência de consumo e comprometimento coletivo.

Para ele, a educação financeira falha, essencialmente, por falta de consciência dos pais. “Por apelo emocional, como compensação pelo tempo que não podem dedicar aos filhos ou por absoluta falta de educação financeira em suas próprias formações, os pais é quem erram nessa convivência com os filhos. E, em geral, a aplicação de rotinas para a educação financeira levam em conta mostrar que os pais estão errados, infelizmente.”

Para Fernando Benjamin, está embutida em nossa cultura a ideia de que quem faz planilha de fluxo de caixa é chato, economista, contador. “É uma ferramenta objetiva e de fácil utilização para a família e extremamente necessária. É saber o que se gasta, onde, qual o valor e como isso está distribuído ao longo do mês, tendo o resultado ao final de cada mês para poder manejar eventuais ajustes”, orienta.

Mas ele insiste no uso de ferramentas simples. “A maioria enxerga a realidade pela dor. É preciso acabar com isso. Tem de montar fluxo de caixa com gastos fixos e planilha simples com gastos em alimentação, educação, casa, carro, lazer. Sem saber exatamente o que se gasta não há como acompanhar nada”, aponta o especialista.

Para Benjamin, o consumidor tem de ter a coragem de avaliar se tem vícios de consumo. “Por apelo emocional, desajuste emocional ou não, cada um tem de ver onde está errando. Depois, é cortar os vilões principais, como o cartão de crédito, o financiamento sem dinheiro, o telefone pré-pago. A regra básica é na lata: se tem dinheiro compra; se não tem, não compra.”
No mais, gastos com banho, com uso de eletrodomésticos, roupas ou qualquer “atrativo instantâneo” de consumo, como chocolate, devem fazer parte de um “pacote de consciência de consumo”. “A fixação de metas saudáveis de redução de gastos, com a participação de todos, é uma ótima opção para atingir resultados e um incentivo ao convívio familiar”, finaliza.

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