Articulistas

Apegar-se

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Neste verbo, o mal do mundo. Apegamo-nos tanto às coisas, às pessoas, ao dinheiro, ao trabalho, aos projetos, aos compromissos,  que  esquecemos de nos apegar a nós mesmos. Presos ficamos a tudo  e, por isso, perdemos a liberdade. Depois, o  medo, até o pavor, de tudo perder. Fiéis ao espírito de época, viver passou a significar possuir. Fomos nos apegando e acumulando tanto, que a ameaça da perda aumentou em igual proporção. Então, rosnando, ficamos, caninamente, protegendo o osso das nossas posses.

Em resumo, a ganância  nos levou a um grande equívoco,  não percebemos  que o bem viver exige exatamente o contrário: desapegar-se. Desapegar-se para livre ser. Quanto mais desapegados, menos sofreremos a intensidade da perda.  Seria isso mesmo? Ou este raciocínio estaria merecendo melhor reflexão?

O médico e psicanalista Francisco Daudt da Veiga conta-nos que uma jovem paciente confidenciou-lhe ter aprendido muito bem essa lição. Disse-lhe que, “desapegada”, sentia-se mais segura pelo pouco a perder. O  psicanalista não se segurou:  “Ai, meu Deus, onde foi que você aprendeu isso? Então você vai passar pela vida desapegada das coisas e das pessoas que lhe importam? Só por medo de perdê-las? Perder dói, sim, mas só quando a perda chegar”.

Felizmente, a luz do bom senso. Burrice sofrer por antecipação. Então, nada de se desapegar. Ao contrário, o melhor é que nos apeguemos - e muito - a pessoas, a coisas, a projetos... Sem vínculos, não há afetividade, não há amor, não há  família, não há alegria, vida não há. Sem vínculos,  o que nos resta é  a solidão. E para bem traduzi-la, o poeta inglês E.E. Cummings, disse, numa metáfora altamente criativa,  que a solidão é uma folha que cai (“Loneliness: a leaf falls”). Imaginemos, por força da sugestão poética, a queda livre dessa folha. Desapega-se  da árvore que a nutria,  desapega-se  dos galhos que lhe garantiam fixação e segurança... Desapega-se do todo... Então, num  balé suicida, vai lentamente caindo para, no chão, rolar, secar e morrer.

Como poesia chama poesia, lembremo-nos do  Vinícius para quem o amor deve ser infinito enquanto durar. Mais não se lhe pode pedir, pois o amor, como tudo na vida, é chama. Tudo queima, tudo acaba,  nada será imortal. O verso, na sua sabedoria, sugere que nos apeguemos infinitamente ao amor no inteiro tempo do seu durar.  

Guimarães Rosa também nos avisou de que “viver é perigoso”. E o é porque da vida nada sabemos. Sem aviso prévio, apagam-se as luzes, cerram-se as cortinas, saímos de cena, o enredo acabou. Nova urgência de  viver intensamente  nossos apegos.

A vida não cansa  de nos ensinar que nada tem um lado só. Se o apego é preciso, o desapego também o  é. Desapegar-se de coisas e de gente. Não se vive bem sem uma boa faxina, varrer tudo e todos  que  no seu tempo duraram. Algumas páginas  precisam ser  definitivamente viradas. Agora, o  mais difícil desapego é o do nosso umbigo vaidoso,essa   burra mania  de vivermos  emparedados.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras  - curso_romag@uol.com.br

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