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| Hector Babenco na TV Cultura em janeiro de 2014 |
“Se você fizer pergunta idiota, te deixo na estrada.” Tiradas assim – essa à reportagem no início de 2015, numa viagem a Paulínia durante filmagens de “Meu Amigo Hindu” – fizeram com que Hector Babenco fosse sempre lembrado por seu gênio forte.
Mas além do humor difícil, Babenco foi um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro a partir dos anos 1970, incluindo uma passagem por Hollywood, onde trabalhou com nomes como Jack Nicholson e Meryl Streep.
Babenco morreu na noite desta quarta (13-7), após uma parada cardíaca. Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para tratar uma sinusite. Lutou por mais de uma década contra um câncer no sistema linfático.
Nascido na Argentina e naturalizado brasileiro desde 1977, Babenco lançou seu olhar para toda a sorte de desvalidos deste país – presidiários, prostitutas, bandidos – e levou o cinza de SP para telas estrangeiras em filmes como “Pixote”, “O Beijo da Mulher Aranha” e “Carandiru”.
De tudo um pouco
O cineasta nasceu em Mar del Plata, em 1946, filho de imigrantes judeus. Com o pai, aprendeu o ofício de alfaiate, ao qual se dedicou até os 17.
Nos anos 1960 foi à Europa para fugir do serviço militar e aportou no Brasil, onde trabalhou como vendedor de enciclopédias e fotógrafo.
Em 1972, rodou um documentário sobre o Masp. Em 1975, filmou um segundo, sobre piloto Emerson Fittipaldi.
Sua segunda incursão na ficção, o thriller político “Lúcio Flávio: O Passageiro da Agonia” (1977), tornou-se a sétima maior bilheteria do cinema nacional.
Indicado ao Oscar
Em “Pixote” (1981), ele entregaria a Marília Pêra seu papel mais importante do cinema: Sueli, prostituta do submundo paulistano que acolhe um garoto fugido da Febem.
A repercussão do filme atraiu os olhares estrangeiros para Babenco que, em 1985, lançou sua obra mais conhecida, a coprodução Brasil-EUA “O Beijo da Mulher Aranha”.
O longa disputou a Palma de Ouro em Cannes e rendeu ao diretor indicação ao Oscar. Perdeu o prêmio, mas William Hurt levou a estatueta de ator.
Já “Ironweed” (1987) fracassou nas bilheterias, mas seus protagonistas, Jack Nicholson e Meryl Streep, foram indicados ao Oscar.
Outros destaques
“Brincando nos Campos do Senhor” (1991) misturou americanos (Tom Berenger, Aidan Quinn) e brasileiros (Stênio García, Nelson Xavier).
Nos anos 1990, um câncer no sistema linfático afastou o cineasta da direção e o levou a um transplante de medula.
Ele só voltaria a dirigir em 1998, com “Coração Iluminado”, obra semiautobiográfica.
“Carandiru”, de 2003, trata do massacre na Casa de Detenção narrado no livro de Drauzio Varella, amigo de Babenco.
“O Passado” (2007) foi mais um dos rodados na Argentina, com o ator mexicano Gael Garcia Bernal à frente.
Um contador
Babenco retomou a experiência com a doença em seu último filme, o mais pessoal deles, lançado comercialmente em 2016. “Meu Amigo Hindu” tem Willem Dafoe como um cineasta que sobrevive ao câncer. “Me vejo como um contador de histórias. O cinema é meu quintal”, dizia.
Três filmes com a ‘marca’ Babenco
PIXOTE: A LEI DO MAIS FRACO (1981)
Babenco transformou a história de um menino abandonado e saído da Febem em um dos filmes mais aclamados da década de 1980 - a cena em que a prostituta Sueli (Marília Pêra) dá o peito ao garoto, ficou célebre. Recebeu sete prêmios internacionais e foi indicado também ao Globo de Ouro
O BEIJO DA MULHER ARANHA (1985)
Com Sonia Braga (foto), alavancou a carreira internacional de Babenco. Inspirado em romance do argentino Manuel Puig, deu o Oscar de melhor ator a William Hurt e rendeu outras três indicações da Academia, incluindo a de melhor diretor. Foi indicado à Palma de Ouro e finalista do Globo de Ouro
CARANDIRU (2003)
A terceira indicação de Babenco à Palma de Ouro de Cannes veio com longa baseado no livro do médico Drauzio Varella. O filme, que traz no elenco Rodrigo Santoro, mostra o massacre que matou 111 detentos na penitenciária, em 1992.
‘Poderoso, relevante’
“Embora tenha encontrado Hector cinco ou seis vezes em toda a minha vida, sempre gostei de estar com ele. Seus filmes eram bons, alguns muito bons. Era um cineasta poderoso”.
Paul Auster, escritor
“Ele foi um dois grandes nomes do cinema brasileiro, tinha uma grande cultura na área de cinema. Era um cara muito vivaz, uma alma de criança no cinema”.
Anna Muylaert, diretora
“De todos os cineastas brasileiros, o Hector era com quem eu mais me identificava. Também era o único cineasta realmente meu amigo, até por uma questão geracional”.
Bruno Barreto, diretor
“Ele significava muito para o cinema nacional. Significava tudo. Fez um grande filme, “O Beijo da Mulher-Aranha”, que se tornou um ícone do cinema brasileiro”.
Tata Amaral, diretora
“Diria que, só pelos seus quatro primeiros filmes, ele já é o maior. O “Brincando nos Campos do Senhor” é uma obra-prima e o americano “Ironweed”... ele alcançou nível de potência”.
Cao Hamburger, diretor
“Ele não foi só um grande cineasta, mas também um grande homem em nossas vidas. Sempre foi muito rigoroso, muito direito, uma pessoa boa de se conviver”.
Cacá Diegues, diretor
