Tribuna do Leitor

Convivência humana

Gabriel Bocorny Guidotti - Jornalista e escritor
| Tempo de leitura: 2 min

A moça do supermercado joga os itens adiante, como se exalassem substância corrosiva. A expressão dela refletia pânico silencioso.

Queria sair dali, mas algo a impedia: um cliente estagnado, olhando para o infinito. Era a vez dele, mas a fila não andava, mesmo após todos os produtos passarem pela registradora. O que aconteceu? Esqueceu-se das folhas de alface! E aí decidiu punir os outros por seu erro. Longos minutos de espera.

Atitudes mesquinhas são condenáveis. A falta de educação não tem sexo, credo ou cor.

Sabe aquele beócio que atravessa a rua em local proibido? Sabe aquele bobalhão que para em cima da faixa de segurança? E o espertalhão que ignora o tamanho da fila e dá um jeito de se enfurnar no meio? As pessoas estão loucas! O ritmo da vida contemporânea transformou-as em selvagens.

Atos falhos de caráter são os mais difíceis de digerir. Não raro, o infrator se ofende, parte para a briga, descarta o erro. Prefere permanecer na vilania, não deixando esmorecer o demônio interior.

O tempo gira ao contrário. Voltamos ao passado e vemos que o pai foi um bêbado infiel. A mãe, devassa. Ele, no meio disso tudo, conheceu os parcos valores de um tio distante. Só que o tempo não volta. O tempo anda para frente. É por isso que alguns heróis buzinam em extensos engarrafamentos.

Talvez seja uma filosofia vinculada à fé: “não esmagará o caniço quebrado. Não apagará o pavio fumegante”. Não fará nada disso, mas se buzinar insistentemente, os carros começarão a levitar, e o caminho ficará livre e cristalino a você. Tal religião é inventada e personalíssima, apenas para deixar claro.

A má educação não permite paz nem no conforto da casa. Ora gritos na madrugada, ora o barulho alto de caixas de som.

Os capítulos da convivência humana espalham angústia em atos cênicos de aridez comportamental. Dizem que o Paraíso é local de gente civilizada. Bem, então o que sobrará às nossas pobres almas?

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