Desde o tempo das cavernas a convivência com a violência e o perigo faz parte de cada vida e num certo sentido viver é desafiar, enfrentar e superar perigos, como anotou com aguda sensibilidade Guimarães Rosa ao concluir que viver é muito perigoso. Se assim tem sido desde aqueles remotos tempos, de lá para cá e ainda agora os perigos foram aumentando conforme a evolução humana em proporções alarmantes e despropositadas.
Ao longo dos tempos a brutalidade das guerras incentivou invenções e aperfeiçoamento de armas e desde a invenção da pólvora até as modernas bombas de destruição em massa caminhamos pelo indesejável aprimoramento de instrumentos de guerra cada vez mais violentos, elevadas as situações de perigo nos delimitados e determinados territórios que constituem os campos de batalha. Fora deles menor o perigo.
As armas são concebidas e construídas para servir a violência independentemente das guerras e quanto mais são aperfeiçoadas maior é a carga de perigo que representam restando pouco eficientes os mecanismos civilizados de controle para reduzir riscos de perigo. Nossa desvairada política nacional de desarmamento patrocinada pelo falecido Ministro Marcio Tomás Bastos além de não reduzir as situações perigosas produzidas pelas armas acabou por incentivar o desarmamento da população e assim reduzir a possibilidade individual de resistência diante da criminalidade. O que em certa medida também ocorre com preocupante freqüência apesar da relativa segurança assegurada pela Segunda Emenda da Constituição Norte Americana enquanto garante ao cidadão americano direito de ter e portar armas para defesa pessoal. Em suma as armas controladas ou liberadas constituem instrumentos de violência que ampliam – e muito - as situações de perigo para o ser humano.
Aliás, não são só as armas que aumentam as situações de perigo. Quaisquer instrumentos concebidos para fins pacíficos se utilizados como armas tornam-se perigosos. Credita-se depressão e suicídio de Santos Dumont à constatação de que o avião que concebera como meio de transporte fora utilizado para bombardeios-testes durante a Guerra Civil Espanhola, gerando lastimável carnificina. Em tempos mais recentes os aviões de grande porte utilizados no atentado das Torres Gêmeas, a inocente panela de pressão usada na maratona de Boston e agora o caminhão-transporte empregado na tragédia de Nice são claros exemplos de situações perigosas geradas pelo desvirtuamento criminoso de instrumentos pacíficos, em ambientes que não são campos de batalha. O perigo, agora, pode estar em qualquer lugar.
Tais situações violentas e perigosas que agora podem ocorrer em qualquer ponto de qualquer território e não apenas em delimitados territórios de batalha aumentam potencial e extrapoladamente as situações de perigo, conforme a estupidez de seus planejadores e executores, confirmando que este nosso velho mundo já não é mais o mesmo e cada dia fica mais perigoso, em qualquer ponto e com criativa improvisação de armas que não são armas. Infelizmente viver - improvisado superlativo adequado -tornou-se perigosíssimo.
O autor é advogado, articulista do JC e escreve a cada catorze dias.